quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

13.jun.2015

Homenagem
na comemoração dos 25 anos
da Associação Cultural da Beira Interior
Igreja Matriz do Fundão

(...) eu tive, ontem, o privilégio de estar entre os que foram tocados por essa luminosa gratificação. Pela via da mais pura e íntima das artes, a minha amada Música, essa “linguagem dos deuses” (...)

Festa em modo maior

Num tempo e num lugar em que a vida nos teima tanto em ser sombria, o militante otimismo de estarmos contra revigora-se naqueles momentos em que o paraíso nos lança uma centelha da sua verdadeira essência e forma: a Arte. E eu tive, ontem, o privilégio de estar entre os que foram tocados por essa luminosa gratificação. Pela via da mais pura e íntima das artes, a minha amada Música, essa “linguagem dos deuses” que tem de divino, por sobre tudo o resto, abrir-se a todos tanto quanto mais profunda é no sentimento e elevada na expressão.

Já foi acontecimento grande a Associação Cultural da Beira Interior ter querido fazer o encerramento das comemorações dos seus 25 anos na minha terra. Tê-lo feito com um concerto que me dedicou foi, para mim, uma inesquecível honra – sobretudo porque, como fui claro a sublinhar desde o momento em que o Maestro Luís Cipriano me convenceu a aceitar a homenagem, mais acanhada senti a pequenez do meu nome associada a evento e protagonistas tão grandes. Assisti ao concerto aturdido pela dificuldade em compreender a dedicatória, só justificada pela amizade que muitos anos de comum amor à Cultura cimentaram entre o Coro Misto da Beira Interior e um homem simples que é apenas um seu grato admirador.

Privilégio, repito, foi estar ontem entre os que assistiram ao concerto. Não maior que de qualquer e todas as vezes em que o Coro Misto nos eleva até próximo da sua altura – mas com a mesma plenitude de alma de sempre. Fernando Paulouro, pela palavra com que como ninguém que eu tenha conhecido alcança o essencial da Vida, disse que “foi bom que a música, essa companheira, como dizia Fernando Lopes Graça, viesse povoar este fim de tarde cinzento para aquecer os nossos corações tão doentes deste país de política canalha”, e “pensei para comigo, quando o milagre da música acabou, que, se calhar, são nestes instantes irrepetíveis que se consegue chegar às tais inalcançáveis estrelas de que falava o nosso poeta”. Não me atrevo a intrometer acrescentos nessa conclusão.

Privilégio, sublime privilégio, é para esta região – rica de tantas coragens, pobre de tanto abandono – ter Luis Cipriano e a sua Associação como amigos. Porque da mais autêntica amizade se tratou a dádiva deste concerto, porque de indizível amor tem constado a luta deste magnífico Coro e deste excelso Músico que é seu maestro e mentor, para resgatar este Interior da sombra da sub-humanidade a que a maldade e a ganância de mil falsários a tem reduzido – e a restituir à dignidade que a grandeza de sacrifícios ancestrais e da própria História justificam. Se é verdade que a Música faz as pessoas melhores, é bom não esquecermos o inestimável valor que para esse acto libertador é a obra da sua própria criação.