quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Estrelas com Música
Fernando Paulouro Neves ......--------------------------------.............in Notícias do Bloqueio

Penso que li um dia um poema de Eugénio de Andrade (é a minha memória que me conduz) que fala, a propósito da música, de uma procura criadora que é uma espécie de desafio para chegar a uma "inalcançável estrela". Era, no fundo, o poeta a dizer-nos que a divina arte tem dentro de si alguma coisa que é própria dos deuses. É um olhar porventura comum aos domínios da criação artística, mas o Eugénio tinha um fraquinho pela música e gostava de falar nos seus compositores do coração. Mas tinha, também nessa matéria, uma cultura vastíssima. Lembro-me bem de como, uma vez, pelas ruas de Praga e à beira do rio, ele me falou da música de Smetana, que nunca mais esqueci como dimensão sinfónica de Praga e do Moldava. Eu lembrei-me hoje desses instantes, que a memória gradua e arquiva como essenciais, quando assistia ao concerto, na igreja matriz do Fundão, de encerramento das comemorações do 25.º aniversário do Coro Misto da Beira Interior, obra que o maestro Luís Cipriano sonhou e deificou neste nó de terra.

O concerto tinha uma justíssima dedicatória: homenagem a António Leal Salvado, advogado fundanense, cuja paixão pela música é conhecida, admirador do génio criador de Luís Cipriano, que prestou inestimáveis serviços, sobretudo de apoio jurídico, à Associação Cultural da Beira Interior. Eu, que tenho acompanhado a viagem criadora de Luís Cipriano, que sei do seu prestígio internacional, que partilhei cumplicidades culturais com o maestro, sei do seu temperamento corajoso e frontal, das suas batalhas contra abusos de poder, sobretudo quando o poder assume contornos provincianos, da sua linguagem desataviada e concreta para denunciar injustiças ou, o que é mais grave do ponto de vista da liberdade cultural, quando se visa bloquear o projecto cultural (a Associação Cultural da Beira Interior) que ele abraçou com amor desmedido. Conhecendo tudo isto e o temperamento de Luís Cipriano já se podem imaginar as guerras jurídicas em que António Leal Salvado esteve envolvido e cujo cômputo geral se salda por uma enorme vitória.
Este concerto tinha, assim, um sabor especial. E foi bom que a música, essa companheira, como dizia Fernando Lopes Graça, viesse povoar este fim de tarde cinzento para aquecer os nossos corações tão doentes deste país de política canalha. Momentos muito belos protagonizados pelo Coro Misto, cuja qualidade elevadíssima é reconhecida cá dentro e lá fora, mas também por um aspecto muito espectáculo que marcou o acontecimento e que ilustra bem a capacidade pedagógica de Luís Cipriano e a forma pessoal como ele marca os seus projectos culturais. Pudemos ouvir a "Missa em Ré Menor", composta para o Coro Misto e Coro Infantil, estreada em 2014 em Colmar-Berg, no Luxemburgo, mas desta vez, aliando, também, além da Orquestra de Câmara, os Coros Infantis da Escola Serra da Gardunha, do Fundão, da Escola EB 273 do Tortosendo e o Coro Infantil de Mação.
A expressão colectiva, na diversidade das tonalidades, a surpreendente frescura infantil e juvenil, criaram um momento muito especial. Penso que as comemorações dos 25 anos do Coro Misto da Beira Interior fecharam com chave de ouro. E, pensei para comigo, quando o milagre da música acabou, que, se calhar, são nestes instantes irrepetíveis que se consegue chegar às tais inalcançáveis estrelas de que falava o nosso poeta.