quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
24.ABR.2020




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O dia e a data

O Dia do Livro foi ontem – ainda há umas horas durava, para tantos celebrantes que, haja Deus!, me convocaram a atenção, me reavivaram memórias de tantos sábios que tive o privilégio de ter à minha cabeceira, dizendo-me o que eu queria ouvir, o que não queria ouvir, o que precisava de ouvir. Dizendo-me tudo.

Por isso o celebro hoje. Ao meu modo. Pagando um pouco daquela imensa dívida que tenho para com os meus sábios. Com amor, claro.

Pp 129-130. Quase Ninguém tem amores quase perfeitos. A espaços, parecem acabar mal – mas em duas palavras se diz a Vida: ela continua.  
"(...) Mais forte que a inveja e a raiva de cada um e mais resistente que a recíproca emulação dos dois – é ainda a indiferença que os iguala. É só indiferença que os mantém ligados. Será a indiferença a solução comum a ambos.
....... Ele, agarra-se à nostalgia do outono, e fantasia ou pretende imaginar que se segurar a queda nunca chegarão ao chão as folhas já desprendidas. Ela, é ainda com a mesma indiferença que foge de lugares e de rotinas, voa pela liberdade como uma andorinha que arriba para mais amenas primaveras, esvoaça de decepção em decepção, vai poisando de decepção em desilusão, e se for caçada por um predador qualquer quero lá saber, o hábito da indiferença é isso mesmo, mais tarde ou mais cedo é apanhada, e como poderia eu não ser apanhada, pois não vês que é isto a vida que me deste?.
....... Os dois na indiferença, que os une e continua una com a inveja de um e a raiva do outro, porque inveja e raiva são o mesmo sentimento, escravidão e liberdade são duas soluções para o mesmo vazio de passado.
....... Acabou-se, sim, a unidade de Deus e diabo!, qual quê, são os dois o amor mas são diversos, cada um tem o seu tempo e o seu papel, Um já há muito não O vemos em lugar algum e já nada pode fazer por nós, enquanto o outro aqui está, aí o temos a afirmar a sua força, o seu pleno poder, para que saibamos no que nos metemos quando arriscámos a ganância de ter tudo – que é ou foi isso o amor.
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......  Chegou o tempo de nos havermos com o diabo. O fim de Deus é uma realidade concreta e clara, a ideia dele é concreta e claramente finita.
....... O amor eterno não será já o amor intemporal e infinito, é apenas um relâmpago no passado de uma vida em si mesma breve – pois não foi já dito que a Vida é apenas uma centelha de luz que fugazmente arranha a escuridão da eternidade?
....... A eternidade do amor é apenas uma metáfora, a invisível tatuagem no coração é afinal uma metáfora, e ambas as metáforas são, como todas as metáforas, uma fantasia da realidade.
....... A realidade é uma fantasia, a vida um relâmpago, a tatuagem de ti no meu coração uma metáfora, hoje invisível e sempre fantasia.
....... Assim é, mesmo que a realidade – a que queríamos ou a que projetámos ou a que porventura logremos – só possa ser alcançada e só faça sentido pela fantasia da metáfora.
....... O amor era uma andorinha, apareceu um gato e comeu-a.
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