quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

HÁ DIAS como hoje. Dia longo, demasiado grande para um homem demasiado pequeno.

Apoucou-se-me o ego ou infimizou-se-me a alma ou afrouxou-se-me a razão. Coisas do coração, talvez. Há dias assim.


O antes e o depois, dor e glória, altos e baixo: C’est la vie! – e, como há dias ouvi dizer “a maior conclusão a retirar da Vida resume-se em duas palavras: ELA CONTINUA”.


Vou ali, já venho. Vou reabrir diálogo com o Bernardo - grande amigo, que é mais Fernando uns dias e menos noutros. Há um tempo que não está à minha cabeceira. Outros por lá se põem a fazer não esquecer que o lugar do Fernando/Bernardo está lá sempre.


Já vim. Ouvi-o, atentamente e ele, disponível como sempre, falou-me do meu desassossego.

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Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.

Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que é diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos como a de Éolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.

Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem, por visão, todos os montes; e tem, por posição, todos os vales. O sol que doura os píncaros, dourá-los-á para ele mais que para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o constituem de prisão.
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Bernardo Soares
Livro do Desassossego
arq2023ABR