quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
24.ABR.2020




A data e o dia

Sem 24 de abril, os heróis de ontem não seriam  os heróis dos heróis de hoje – nem dos possessivos, exclusivistas e anti-ontem que são os arvorados heróis do amanhã.

Sem 24 de abril, os anti-amanhã de sempre nada teriam para a mórbida saudade que hoje têm.

Na era de 24 eu tive heróis – outros para além dos de hoje, outros a somar ao lado dos de hoje. Tive, à minha maneira, saudades de futuro – e hoje também tenho saudades agarradas à História.

A maior saudade é, a par da que me mata das pessoas que a morte e a Vida entretanto de mim perderam, a dos primórdios da minha paixão maior, a Música. A música em que hoje vivo chega-me para tudo, menos para matar a saudade da música em que me fiz gente – e é verdade que, de algum modo ou em alguma parte, essa me ficou para trás com o mais famigerado dia 24.

Neste abril fui ao reencontro dela. O primeiro contacto da nova era foi (como havia de não ser?) tão entorpecido quanto instintivo, tão acanhado quanto entusiástico. Feliz.