Há muito que a vida me ensinou que os grandes homens andam no meio de nós, os comuns mortais – e quantas vezes discretos. As mais das vezes discretos, direi melhor. Porque a arrogância é atributo dos néscios e a humildade virtude dos sábios.
Mas por muito que a vida mo tenha ensinado, deparar-me com um grande homem continua a ser para mim a mais fascinante gratificação de observar o quotidiano dos meus dias. Revelar-se diante de mim, a qualquer momento, um profundo pensamento, uma grande obra ou “simplesmente” uma grande alma – isso é, fora de dúvidas ou comparações, a mais bela e grandiosa dádiva desta espantosa maravilha que é viver.
Tive uma dessas revelações – emocionante revelação – nestes últimos dias. Deveria dizer deslumbramento e só o não digo porque a tradução deste magnífico estado de alma anda por aí hoje mutilada pela semântica das modas linguísticas destes cinzentos tempos, embotados no vulgo de uma sociedade de comunicação pobre e estereotipada.
Não foi surpresa, para mim, a qualidade intelectual e humana do meu velho amigo Álvaro Roxo Vaz – posto que está visto que a ele me refiro. Conheço-o, praticamente, desde que me conheço a mim próprio e conheço-o na plúrima dimensão que faz o conhecimento verdadeiro: pela família donde veio, pela conduta cívica e social que nele acompanhei todos os anos em que sei o que isso é, pelos sítios por onde nunca deixei de o ver andar e agir e, até, pela família que ele construíu, ou não fosse essa a maior obra que um homem faz na sua efémera passagem por este mundo. Homem bom, de gente boa – a que o fez homem e a que ele fez à sua imagem e grata semelhança.
A minha vénia não é para este homem bom – essa está há já muito consolidada pelo tempo – é para um exemplo de atitude que dele recebi nestas duas semanas. Não é a pessoa do bom amigo de sempre que me inspira as palavras que agora estou a gravar no arquivo mais relevante da minha memória. É o momento de sabor mágico que ele me ofereceu, calma, paulatina e discretamente, nas páginas densas e leves dos livros que tem escrito e há dias me ofereceu.
Deu-mos todos – e são dez – de uma vez. E li-os, um a um e de seguida, de uma vez. Com deleite e gratificação ainda maiores porque a velocidade a que os “devorei” não foi programada. Não era para ser assim, não era para os usufruir de empreitada que ele mos deu. Nem sequer esperaria (e muito menos me pediu) que os lesse ou os lesse já. Deu-mos, simplesmente, pela mesma razão que os escreveu: a partilha daquilo que a vida de um homem transforma de marcas em marcos – e que ele quis registar em palavra de preto-no-branco, para que as lições, as belezas e as grandezas que o Destino lhe colocou em sorte não ficassem só propriedade sua. Eu é que, logo que entrei naquele mundo que a palavra cristalina – despretensiosa e em “português de lei” – nos entrega de mão beijada, já não consegui sair dele. Recusei-me, recusava-me a cada serão, a permanecer no mundo cinzento e deformado que durante o dia encontrava pela rua – e ao regressar à intimidade do lar presenteava-me sofregamente com o regresso ao mundo-de-verdade que está ali, em retrato de corpo inteiro, naqueles livros.
São dez livros de exaltação (sempre exaltação dos outros, resguardada na humildade do próprio), de descobertas, de encantamentos, de aflições, de euforias e de lágrimas – de humanidade. Daquela humanidade que faz que o mundo seja uma obra divinal só por nele haver homens. Porque nestes dez volumes de vida não está guardada apenas a vida um homem, está a História de muitas vidas, as vidas de muitos homens, do solo por onde eles passaram e deixaram marcas, dos elos que ligaram entre si esses homens e os ligaram ao solo colectivo e ao tempo comum. O regresso ao Chão de Alverca, a visita guiada à juventude recrutada para uma guerra que ao mesmo tempo nos era alheia e foi de nós todos, o passeio afectivo Rua da Cale abaixo, a imortalização de uma comunidade que genuinamente nos fez e em que orgulhosamente nos fizemos – são o abraço de um tempo fecundo de que a memória não pode prescindir e o coração não quer deslassar.
Álvaro Roxo Vaz tem a condição de quem já pode, pela idade e pelo modo como a conquistou, dizer que conhece a vida. E hoje, entre as muitas realizações em que continua, toca a vida pelo lado mais simbólico e sensível dela, que é a Música, e pela forma mais pura dessa primeira das artes, que é o canto. E gosta de continuar a cantar tal como faz questão de ele próprio ser: com a simplicidade dos atos profundos e com a partilha dos sentimentos autênticos. E essa particularidade não é indiferente – bem pelo contrário – ao ato de imenso e genuíno amor que o levou a escrever. O impulso de escritor é nele o íntimo instinto de cantar a Vida. Ele eleva-se nas alturas da vida, sorve dela a misteriosa maravilha que ela doa aos que a queiram e saibam desfrutar, molda as lições que nos caminhos dela recebe, até a concentrar na sua mais essencial beleza – e, reunindo essa imensa obra, oferece-a aos pares do seu tempo e lega-a aos anais da História. E nós, leitores, sossegamos ao ver feito, de forma tão generosa e simples – e por isso tão brilhantemente comunicativa – aquilo que a nossa própria consciência nos impõe constante e instantemente: que restituamos aos nossos semelhantes as infindáveis e imensas lições que tivemos o privilégio de colher no nosso percurso.
Quem vive o tempo de Álvaro Roxo Vaz e tem o benefício de ler a sua obra escrita encontra nestes livros tudo o que teve medo que a memória perdesse, tudo o que sempre cuidou de bem guardar para legar à geração seguinte, como prova da beleza e da grandeza de uma época, de uma região, de um povo, de uma cultura, de uma Humanidade que, sem curarmos de a arvorar em melhor ou maior civilização do que outras matrizes de tempos e carizes diversos, é, sem dúvida, uma mundividência que enriqueceu a História do último século e que o Futuro só perderia se ignorasse ou inconsiderasse. O Tempo que Álvaro Roxo Vaz nos preserva, os seus ideais, costumes, sentimentos, cultos, rituais, códigos de humanidade, manuais de carácter e guias de viver – esse tempo, essa era, é um sólido alicerce para a construção de um mundo melhor.
É essa inestimável virtude, de magnânima doação, que é nosso dever agradecer-lhe.
E por mais que lha saibamos agradecer sempre ficaremos a dever.
É essa inestimável virtude, de magnânima doação, que é nosso dever agradecer-lhe.
E por mais que lha saibamos agradecer sempre ficaremos a dever.