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Há dias de boas notícias

Há dias de boas notícias

Bem dizem a etimologia grega e a História: uma crise é, no essencial, o relançar de grandes regras de progresso – ou de ‘oportunidades’, para estar politicamente mais à la page.. Sabia-o o ‘dr’ Relvas quando mandou o seu secretário Coelho lançar os trabalhadores para o desemprego, os jovens para a emigração e os pobres para a fome – eram a crise e o seu inestimável benefício do ‘mundo novo’. Sabem-no os sábios Eduardo Sá e Isabel Stilwell quando exortam os miúdos pobres a darem graças-a-deus por terem a oportunidade de trabalhar o dia inteiro em troca de iogurtes e, do mesmo fôlego, ganharem o dom da humildade cristã.
Sabe Deus quanto temos esperado por boas notícias. Mas elas aí estão! 

Hoje e já, aí estão elas:

O Governo de Miguel Relvas não vai tornar definitivos os brutais cortes com que o adjunto do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, nos assaltou à falsa fé durante os últimos dois anos e meio. A manobra de teste “a-ver-se-pega” ensaiada pelo rapazote que há dias convocou os jornalistas e anunciou ainda mais cortes nas pensões e nos salários – essa manobra não foi ordenada pelo Coelho, que até estava em África nesse preciso dia, o mesmo dia em que, nem de propósito, a chefe do tal rapazote, Maria Luís de seu (dela) nome, estava na América. Aliás, a bem dizer nem se tratou de manobra nenhuma. Foi mera manipulação jornalística, como bem avisou o Guedes. E isto é tão evidente quanto é verdade que o próprio Cavaco – que sempre avisa os perigos primeiro que ninguém – nada sabia de concreto, umas horas antes de lembrar que se houvesse cortes ‘na forja’ o presidente da República seria o primeiro a pronunciar-se, tanto como é verdade que uns minutos depois estava o próprio indígena de Boliqueime a proclamar que, como ele sempre tem afirmado, são precisos cortes, é verdade, mas é nos rendimentos dos ricos.
Boas notícias, afinal. Boas e importantes de verdade. Não se receie pela roubalheira aos grisalhos e desempregados. Roubalheira que, de resto, jamais aconteceu ou aconteceria. Porque afinal – e esta é outra boa notícia – a estrela da companhia Paulo Deneuve Portas, tirou da manga outra verdade que a opinião pública andava a escamotear: o Governo (não o do ‘dr’ Relvas e dos seus adjuntos Coelho e Maria Luís, mas o verdadeiro e legítimo governo do vice-primeiro ministro de Estado e do Estrangeiro, Vistos, Igualdade de Sexos, Feiras, Mercados e Submarinos) este legítimo, verdadeiro e excelso governo pôs finalmente em prática uma verdade tão relevante, importante e capital quanto esta: libertou os injustamente flagelados mercados da infâmia que lhes estava a ser infligida pelos gananciosos usurpadores de rendimento mínimo detentores de contas bancárias de 100.000 euros. Mercados mais aliviados, economia mais pura e cândida, moral e bons costumes da caridade cristã mais salvaguardados – em suma, boas notícias. Notícias das melhores.
As boas notícias, estas boas notícias, permitem – finalmente, haja Deus! – por fim a uma série de equívocos maldosamente espalhadas por uma esquerda radical e inimiga dos portugueses-de-bandeira-na-lapela:
Passos Coelho nunca estabeleceu como sua máxima de governação o empobrecimento de um país que vive acima das suas possibilidades, como nunca chamou piegas aos pobres (até porque, em bom rigor, não os há em Portugal), como nunca mandou emigrar quem não se sentisse bem com a ‘nova ordem’, como nunca sequer pensou que os portugueses estão para levar uma “pancada ainda maior”, como nunca usou a Tecnoforma para chincar ao Estado dinheirama para si próprio e o seu sócio ‘dr’ Relvas, como nunca mandou o Dr. Machete ir a Angola dar um salvo-conduto aos traficantes perseguidos pela Justiça, como nunca arranjou com os seus assessores Mira Amaral e Dias Loureiro a dádiva de 6 mil milhões de dinheiros do Estado ao BPN dos amigos de Cavaco, como nunca congeminou com o pentelhudo Catroga a doação da EDP aos chineses a troco de uns pares de luvas de pelica para a turma, como nunca surripiou os hospitais públicos ao Estado para os espíritos santos de ontem e de amanhã, como nunca ajudou o cratino matemático a estoirar as Escolas Públicas para duplicar o gamanço do Orçamento pelos GPS’s, colégios de freiras e clubes de equitação e jogging. Que fique, hoje sem falta, tudo esclarecido. Como esclarecido deve ficar que o PSD, hoje mais social-democrata que nunca, jamais preparou na Casa Civil do Palácio de Belém o “assalto ao pote”, nem o enrolanço de Bloco e PCP para chumbarem o PEC IV que fecharia as portas à vinda da troika, nem o discurso de Cavaco na tomada de posse exortando as massas a virem à rua derrubar o Governo socialista e chamarem pela troika. Fique a verdade histórica reposta, hoje e já.
Reposta a verdade, hoje e já, deixem as más línguas de recordar os swaps da Maria Luís – pois que hoje e já fica claro que ela não sabe o que isso é, ou melhor, que os swaps nunca existiram.
Reposta a verdade, hoje e já, descansemos do fantasma de Arnaut a soldo do Goldman Sachs para eternizar a dívida e os juros agiotas. Porque a dívida e o défice não foram criados por Cavaco, não foram contidos por Guterres, não foram disparados por Barroso e Santana, não foram debelados e aproveitados para o crescimento por Sócrates, não passaram nestes dois anos e meio dos 90% iguais aos de Alemanha e França para os 140% da escravidão nos próximos 25 anos.
E repostas tais verdades, hoje e já, saibamos que temos Governo, Governo a fazer governação, que é a ciência do bem-estar e progresso do Povo – e não Finança e tecnologia da especulação financeira. E descansemos de camilos lourenços e gomes ferreiras e poiares-lombas. Isso é escumalha da banha-de-cobra que nunca mais se venderá à propaganda, como nunca se vendeu – que nunca, sequer, existiu.
Tomemos nota desta verdade, hoje e já. Só terei gozo semelhante de hoje a um ano.

1 de Abril de 2014