quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Os inimigos da Senhora de Jonet

Os inimigos da Senhora de Jonet
O
Num ensaio sócio-psico-filosófico cujas profundidade e sabedoria não me permitem, é certo,
uma exegese à altura da autora, a Senhora de Jonet enuncia a tese de que
"as redes sociais são o pior inimigo dos desempregados".
Vou ficar com a obra na cabeceira, para à minha modesta maneira fazer tantas reflexões
quantas me permitir a minha paciência de abstémio (para os que o não são, a profundeza da
nova tese deve entrar à primeira, ao final de um serão de sábado) e tentar aproximar-me
de mais este consenso que o Sr.Relvas nos pede pelas interpostas pessoas do costume.
Mas - calma - à primeira vista penso já ter percebido o essencial do alcance de tão
sofisticadas elucubrações da "tia protectora dos pobrezinhos":

Em primeiro lugar, as redes sociais são um perigo.


Em primeiro lugar, as redes sociais são um perigo.
Porque, desde logo, são sociais. Susceptíveis, portanto, de se confundirem com Estado Social, direitos sociais, problemas sociais e outras contaminações que a demoníaca revolução tecnológica infiltrou na boa e sã doutrina católica apostólica romana.
Depois, conclui-se urbi et orbi que as redes sociais são piores que o diabo.
Porque, bem se sabendo que a caridosa assessora de Relvas, Passos, Durão & Cia tem o Mefistófeles, Mafarrico, Belzebu como um poderoso inimigo, sabe-se agora que não é o pior. As redes sociais é que o são
Finalmente - e fazendo uma hermenêutica histórica à luz de outras profundidades desta singular pensadora de profundezas - as redes sociais são apenas um dos inimigos, porque diz a filantropa que elas são 'o pior', ou seja, o mais mau do mais nefasto, entre outros. Comer bifes, lavar os dentes ou deixar os filhos fazerem higiene pessoal com água limpa, por exemplo, são inimigos da pobreza que a Senhora de Jonet tanto se esforça por manter intacta, pobrezinha e brutazinha - e que os demónios da vida civilizada empecilham a toda a hora.

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E quem diz estes inimigos, diz outros - que não podemos tomar como de somenos: que boa seria a vida dos pobrezinhos, que romanticamente caridosa seria a caridade da Senhora de Jonet se os desempregados (e, por maioria de razão, os reformados, os idosos, os aleijados, os órfãos, as crianças, as mulheres divorciadas, os ímpios não baptizados e outras faixas desprezíveis dos gentios) não se entretivessem a pensar para poderem debater, a educar-se para poderem pensar, a reivindicarem para poderem educar os filhos, a reunir-se para poderem reivindicar, a informar-se para poderem reunir, a terem tempos livres para poderem informar-se, a associar-se para terem tempos livres, a participar nas decisões para poderem associar-se, a votarem para poderem participar, a terem Democracia para poderem votar. E, vistos bem todos estes inimigos e os seus indissociáveis perigos – que bom e romântico seria se a matéria-prima da caridadezinha da Senhora de Jonet não se arrogasse a consumir (acima das suas possibilidades, que para bem não são nenhumas) o oxigénio que tanta falta faz aos neurónios da Senhora de Jonet. Ai faz, faz...!