Ao menos a língua mátria! O português, o português claro, eloquente e ‘de lei’, era mal falado (e muito pouco escrito) na minha terra. Quando a minha terra era pobre. As pessoas não podiam fazer mais que trabalhar – que o direito à “oportunidade que se abre” com o despedimento e o desemprego ainda estava por chegar e por inventar. Trabalhava-se e raramente se chegava a doutor. Ainda não havia a Lusófona, nem se sonhava com o “direito a escolher” os colégios germanófilos do Senhor Professor Doutor Crato. Escrevíamos sem erros, dizíamos o que nos ia na alma e falávamos verdade. Ainda não havia imprensa legitimada pela maioria do voto popular – só havia um jornal, livre e rabugento, incomodamente rabugento como todos os inconformados. Pouco lido. Até porque, como convinha, os leitores eram espécie rara. De uma raridade cuidadosamente conservada.
Mas vieram novos tempos. Veio a democracia. E depois uma estranha forma de a arremedar. Vieram grandes figuras de fora. Fora da aldeia deles, fora da cidade em que se fingiram, fora da virtude da primeira e da vergonha da segunda. E veio o dinheiro deles. Veio para eles, pago por nós, cada vez mais por nós. E cada vez mais para eles. E veio a imprensa para todos. Para todos lerem e – é claro – para servir os que a servem. E assim foram mais e mais. E muitos aprenderam a ler pela cartilha. E passaram a escrever a cartilha – ou a mandarem escrevê-la. E já temos imprensa conforme à maioria legitimada. E todos lêem a cartilha – que eles mandam escrever.
Agora eles escrevem. Todos os que agora estão sempre do lado da minha terra. Desta minha terra. Que, claro está, não é minha. Ora, era o que faltava! A terra deles – porque agora é deles, saiba-se – não é para qualquer um. Só para os que sabem ler. E escrever. E agora são eles que escrevem. E que bem escrevem. Como falam.
Não sei a que propósito me lembrei da terra deles, os que já sabem ler e tudo escrevem. Ou mandam escrever.
Afinal, eu tenho na mão, acabada de abrir, uma carta. Carta, não - convite. Ou melhor: Convite. Para a festa deles. Para celebrar a cultura deles. Com o nosso dinheiro - perdão... o dinheiro deles.
E viva a língua mátria! Está bem escrita, a carta. Escrita ao estilo deles. Bem escrita ao jeito de um subúrbio da terra deles. Erudito subúrbio, que fez uma escola – erudita como eles, ao jeito deles. Bendita escola, que deu um deputado da Nação, depois de o terem feito doutor. Engraçada a carta. Escrita em escrita rigorosa. Rigorosamente deles. Rigorosamente com a graça deles. Agora, sim. Já muita gente escreve bem. Como eles.
Logo agora, que eu vou viver para onde possa trabalhar.
A minha terra. Que saudade!
E viva a língua mátria! Está bem escrita, a carta. Escrita ao estilo deles. Bem escrita ao jeito de um subúrbio da terra deles. Erudito subúrbio, que fez uma escola – erudita como eles, ao jeito deles. Bendita escola, que deu um deputado da Nação, depois de o terem feito doutor. Engraçada a carta. Escrita em escrita rigorosa. Rigorosamente deles. Rigorosamente com a graça deles. Agora, sim. Já muita gente escreve bem. Como eles.
Logo agora, que eu vou viver para onde possa trabalhar.
A minha terra. Que saudade!
