quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Assalto à Caixa Geral de Depósitos

Ainda haverá amanhã?

Já lá vai o tempo em que se disfarçava algum pudor para roubar. Ao declararem a extinção da República Portuguesa, os ocupadores decretaram que não tinham que se dar ao trabalho de fingirem ao que vinham. O lacaio que colocaram no lugar outrora desempenhado por um primeiro-ministro entrou ao serviço dos ocupantes avisando-nos de que estava aí para nos empobrecer. E que emigrasse (que lhe desamparasse a loja) quem não aceitasse empobrecer neste território ocupado – que os ocupantes iam estar “em cima” para o avaliarem a ele e, claro está, o que ele tinha era de ser bom aluno. E se depressa lho ordenaram, mais celeradamente o cumpriu: chamou o sócio, a quem a pandilha arranjou um arremedo de “canudo” para lhe chamarem doutor – e, os dois sob o comando do padrinho dos “cidadões”, lançaram-se ao saque.
E foi meter ao bolso rapidamente e em força. BPP, BPN, GALP, EDP, TAP, RTP, ANA, CTT – um longo rol de siglas que escondiam as poupanças sacadas aos portugueses. Poupanças vindas do tempo em que nos saquevam com um disfarce de vergonha.
Agora é a Caixa Geral de Depósitos. Faltava a cereja no topo do bolo. Faltava a sobremesa na pança já cheia. Só assim a quadrilha fica com tudo; só assim o saque fica sem concorrência; só assim se extermina a economia dos empresários que ainda restam e das famílias que ainda respiram. Só assim os salteadores ficam com tudo aquilo que vieram recolher para que a sanzala em que nos armazenam possa ser fechada – com a chave que já entregaram ao amo e senhor que os mandou fazer a devastação total.

Em cada golpe que eles – os sinistros ocupantes e os lacaios escroques – nos foram verberando, fomo-nos habituando a uma sacramental pergunta: Qual será o assalto seguinte? O que será amanhã?
E o vandalismo foi avançando. E a pergunta começa a ser outra: Ainda haverá amanhã?
Riqueza, para aguçar a alarvice dos ocupantes, nós ainda temos – que nove séculos de sangue, suor e lágrimas ajuntaram muito. Para a alarve gula dos gatunos, ainda há planos para o roubo seguinte. Resta saber se a ira dos justos, que não para de crescer nas ruas, demora a enfrentar nos olhos a besta ocupante e a por-lhe as tripas ao sol.
Os expoliados parecem estar sem armas para assumirem a sua missão de justiceiros. Estão inanes, tamanhos têm sido os venenos que lhes servem no lugar do pão cada vez mais escasso.
Mas a cada dia que passa, a cada roubo que nos fazem, ecoa-nos com mais clareza a voz que um homem justo nos legou: “Somos pobres, mas somos muitos!”.