quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Crime na Borralheira

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João Inácio (que tinha agora 42 anos) foi um jovem como muitos outros. À entrada na década de 80 seguiu o caminho normal de todos aqueles que não conseguiram ou não tiveram oportunidade de chegar longe na escola. Com apenas 16 anos fez-se à vida, deixou para trás a Borralheira e rumou a Lisboa. Teve como destino o restaurante do irmão mais velho, que lhe deu guarida e trabalho. Aprendeu a gostar do ofício. A vida sorria-lhe, as coisas corriam bem, fez a tropa em Abrantes (…)
Há algum tempo fora despedido (ao que parece havia poucas obras para fazer) e desde então ocupava os dias em pequenos trabalhos que lhe arranjavam ou no auxílio aos pais na agricultura. No final do dia, é sabido que se metia nos copos. A própria família reconhece isso. Muitas vezes exagerava e tornava-se “presa” fácil para alguns estúpidos da terra darem azo a ideias mórbidas. Por vezes acordava esmurrado, sem saber muito bem porquê. Dizia que tinha caído da sua bicicleta, amiga inseparável, que por vezes lhe escondiam e estragavam. Ninguém aprofundava a questão. Ninguém queria saber.(...)
Na madrugada do dia 28 de Outubro, às seis da manhã, a sobrinha, Cátia, que vinha do trabalho, encontrou-o morto, amarrado a duas grades da parede de um café e a um carro ali estacionado. Uma autêntica “crucificação”. Vómito, asfixia e frio terão sido as causas da morte. Abandonado por todos. Ao seu lado, muitas minigarrafas de Martini e a sua bicicleta de “pernas” para o ar. Dessa vez não lha tiraram. Mas tiraram-lhe a dignidade. A manhã seguinte. O resto da vida.
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Jornal do Fundão, Reportagem, Filipe Sanches - 8.Nov.2007
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"A espantosa realidade das coisas
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A narrativa da realidade fornece sempre abundante matéria de reflexão. Nessa emergência do quotidiano, de que o jornalismo tantas vezes se distancia, colhem-se traços da vida colectiva, doenças mais ou menos enquistadas na sociedade portuguesa que a rotina vai banalizando. Mas, de vez em quando, o tédio dos dias desemboca na anormalidade e razões ocultas explodem numa violência inútil de surpreendente irracionalidade. As consequências, pelo seu carácter irremediável, tornam-se então motivo de angústia colectiva, não faltando a perplexidade que conflui na indignada interrogação: como foi possível? O crime da Borralheira, aldeia periférica da Covilhã, de matriz rural, mas aberta como todas ao confronto da globalidade, é, como se diz, um caso. Um caso decerto com muitas razões ocultas, mas de contornos sociais bem explícitos, se o quisermos analisar na contextualidade dos factos. Há, desde logo, a marca da intolerância em relação a um cidadão que, na debilidade da sua própria história de vida, era facilmente presa indefesa para ser bobo. Há, depois, a irracionalidade que sobe dos desvios comportamentais de três jovens. E, também, a doença letal da indiferença sobre este drama continuado, o sorriso da boçalidade e da estupidez que elege a desumanidade como divertimento. A microrealidade do crime da Borralheira oferece ainda outro cenário que bem merece ponderação. O consumo de álcool como droga quotidiana que atinge sobretudo os mais jovens da tribo e configura hoje, no plano regional (e seguramente nacional), um problema de saúde pública com imensos traumas psicológicos no comportamento colectivo. Daí que, nesta edição, o JF tenha ido em busca do retrato de “alma” de uma aldeia depois do crime, e, do mesmo passo, tenha eleito como Grande Tema semanal o problema do alcoolismo na Beira Interior. Porque isto anda tudo ligado. E não adianta ignorar a espantosa realidade das coisas.
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Jornal do Fundão, Editorial, Fernando Paulouro Neves - 8.Nov.2007
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Beira Interior tem mais de 46 mil alcoólicos

Na Beira Interior, mais de 130 mil pessoas são dependentes alcoólicos ou bebedores excessivos. Os números são oficiais, mas reflectem apenas uma parte do problema porque deixam de fora a produção própria de vinho. Entre as camadas mais jovens, o uso e abuso das bebidas alcoólicas começa cada vez mais cedo.
Números exactos ninguém os tem, mas não restam dúvidas de que o consumo excessivo de álcool continua a aumentar no nosso país, sobretudo entre as camadas mais jovens. (…) na Beira Interior e na sua população residente: num universo de quase 382 mil residentes, mais de 130 mil têm problemas com o álcool. Mais de 46.600 sofrem de dependência alcoólica e cerca de 84 mil são bebedores excessivos.
(…) A verdade, porém, é que se começa a beber cada vez mais cedo. Mesmo em locais públicos, onde, diz a lei, não é permitida a presença de jovens menores de 16 anos de idade. A lei existe, mas raramente é cumprida porque, todos sabemos, a fiscalização não actua. Somos todos cúmplices de uma realidade social que tende a agravar-se e que contribuirá para engrossar os números dos jovens que ficam prisioneiros do consumo de álcool.
As políticas nacionais para o combate o problema do alcoolismo e do consumo excessivo de álcool são outro passo decisivo para minorar um problema com graves reflexos ao nível da perda de produtividade e de custos na saúde, para já não falar das consequências individuais e familiares do problema do alcooolismo.
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Jornal do Fundão, Grande Tema, Lúcia Reis - 8.Nov.2007