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Esta Semana

Fernando Paulouro, JF de 20.Abr.2007
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A cidade proibida

PESSOA percebeu bem o provincianismo português, estigmatizando aqueles que se deslumbravam com a monumentalidade descoberta em paragens longínquas, no estrangeiro. Idêntica papalvice se encontra porventura hoje na cópia apressada das grandes cidades, cujos traços são impostos, sem dó nem piedade, aos pequenos burgos. Foi assim que, ao longo do tempo, as terras do interior, tão despojadas de tudo, se viram apenas condenadas à invasão de um urbanismo que era a própria imagem da falta de senso e de bom gosto. O Fundão não fugiu nem foge à regra e lembro-me bem do Eugénio de Andrade ter deixado escrito, numa caricatura certeira, o desastre que era a unidimensionalidade urbana que tocava o chão fundanense, com a expressão de um mau gosto arquitectónico de “uns taveiras de pacotilha”. O Fundão já foi uma vila harmoniosa. Promovido a cidade, menos por méritos estatísticos ou outros do que por mera conveniência política, num tempo em que o território foi varrido por uma febre de cidades para gáudio dos indígenas. Mudou alguma coisa com a promoção? À distância do tempo, tenho algumas dúvidas que a prosápia dos que gostam de mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma não consegue, de todo, racionalizar. A grande conquista é que se as outras terras eram promovidas... Na voragem destas conquistas, perderam-se serviços e oportunidades, manteve-se o rame-rame em relação a projectos estruturantes, o próprio tecido industrial debilitou-se, enquanto a agricultura e o comércio tradicional agonizam e os serviços tardam a suprir a desgraça alheia. A estabilização demográfica radica, sobretudo, na polarização dos que fogem do mundo rural. A auto-estrada tornou-se benfazejo sinal de modernidade, mas a cidade vai assumindo tristemente a função de dormitório, por razões conjunturais, entre os pólos da Covilhã e de Castelo Branco. É verdade que, como noutros lados, há equipamentos novos, mas a subalternidade urbana (na saúde e no ensino, para citar apenas estes sectores) parece ter-nos sido reservada gradativamente. O que decide o futuro de uma cidade é a sua capacidade de afirmação, a sua ousadia em oferecer especificidades e bem-estar, a sua particular identidade como fenómeno humano. E, neste caso, que é essencial, a relação politicamente articulada entre o poder e os cidadãos, assume uma importância decisiva. Mas a cidade está hoje refém das maiorias. Quem ouve quem? Quem se atreve a descer do pódio do poder para explicar, aos simples mortais que somos, os desígnios providenciais da política local? O caso dos parquímetros tornou-se um dado objectivo de autismo político a raiar as fronteiras da arrogância. A Excelentíssima Câmara Municipal resolveu construir um silo auto, que ficou vazio, até hoje. Estribada em crâneos de empresas que vivem de vender estudos, decidiu impor aos cidadãos o estacionamento pago. Com um critério que ninguém entende, semeou toda a zona central e adjacentes de parquímetros, premiando assim a vida dos fundanenses. E tudo isto dado de herança aos concessionários por 25 anos! Disse bem: 25 anos! Toma lá que já almoçaste. O cidadão gostava de gozar, em matéria de estacionamento, privilégios do poder autárquico. O centro das cidades estão a morrer. Este é mais um prego para o caixão. A Câmara impõe os parquímetros numa cidade onde a requalificação urbana é muito frágil e não há uma única zona pedonal. Assim se pensa a cidade. Há parquímetros! Viva a nossa monumentalidade!