quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

sobreviver à mediocridade

competências e talento
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A nossa civilização tem, cada vez mais, o eixo do seu desenvolvimento fulcrado nas competências. Se já enquanto espécie herdámos do nosso antepassado homo habilis o segredo de evoluirmos através da transformação das capacidades em competências, a condição de sapiens sapiens deu-nos a consciência de ser possível levar até ao impensável o ciclo capacidades / competências / novas capacidades. Esta possibilidade de fazer da inteligência uma ferramenta para a aquisição de mais inteligência não abriu só indefiníveis fronteiras à felicidade individual, acrescentou também ilimitados apetrechos ao progresso dos povos. A matriz de desenvolvimento das sociedades mais avançadas à entrada no século XXI assenta na capacidade de criação, na corrida a criar mais, a criar melhor, a criar primeiro. E a criação depende da quantidade e da qualidade de talentos. O talento é o primeiro veículo do caminho para a perfeição – e esta é a meta exigida pela concorrência imparável das partes no todo globalizado. Por todo o lado se cata o tecido social à caça de talentos, por todo o mundo desenvolvido se trata o talento como uma espécie de pedra filosofal que há que descobrir, estimular, mutiplicar e aproveitar.
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nós, por cá, todos mal

Nós, portugueses, temos algo que nos faz conviver mal com o talento. Somos uma pátria com uma estranha força centrífuga à volta dos homens e dos feitos de excepção – de Camões a Fernão de Magalhães, de Bartolomeu de Gusmão a Jorge de Sena, da bravura no Cabo das Tormentas ao “salto” no sud-express. Fora do nosso solo, o limite parece ser o céu; aqui, parece às vezes que não há nada para ninguém. O talento e as competências de excelência são votados a sentimentos que vão do menosprezo ao incómodo, servindo a mesma idiossincrasia que nos deprime na certeza de que a responsabilidade é sempre alheia. O futuro é sempre difícil por causa da pesada herança do passado, o sucesso próprio é sempre impossível por causa do fracasso de outros. O presidente da junta de freguesia sente-se desapoiado pelo presidente da câmara municipal, que se sente sabotado pelo primeiro-ministro, que se sente incompreendido pelo presidente da república, que se sente manietado pela conjuntura europeia, que se sente condicionada pela hegemonia americana, que quando não anda a braços com os extra-terrestres se sente compelida a encontrar, arrasar e/ou reinventar o eixo do mal.
Nesta conjuntura do conformismo com a própria incapacidade de mais fazer do que procurarmos quem expie as culpas próprias que nunca admitimos, ainda vai havendo quem queira resistir e procurar o futuro olhando para a frente, na convicção de que a energia se gera de dentro para fora – e pela positiva. São aqueles que sabem ou querem vencer pelo talento. Vemo-los, se não em quantidade pelo menos em qualidade, não só no estrangeiro mas também no país, não só nas metrópoles do litoral mas também no coração do interior. Haja quem seja capaz de encarar o seu brilho sem cuidar de se sentir ofuscado.
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um caso comovente
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Admirar o talento provoca nas boas almas aquele fascínio que faz da inteligência o maior dos espectáculos. Mas nunca a ideia de que o génio é um dom que a Natureza distribui aleatória ou fortuitamente por aqui e acolá e que, uma vez recebido, só tem que deixar-se correr. Nada de mais errado! Quem observa de perto aqueles a quem de modo simplista chamam “sobredotados” apercebe-se facilmente dos riscos que a capacidade excepcional acarreta – para quem a transporta e para quem a acompanha. Riscos que não raramente se transmutam para perigos fatais, até pela dimensão com que a sua própria natureza reclama que sejam tratados ou permite que sejam subestimados. É lapidar, nos nossos dias, o comovente exemplo de David Helfgott, um canadiano que aos 14 anos suscitava a admiração entusiástica da sua comunidade ao vencer os concursos de piano em que participava, com uma alma gémea da de Chopin e uma técnica próxima da de Rachmaninov. David tinha um problema sério: o pai, possuidor ele próprio de conhecimentos invulgares mas com um ego maltratado pela vida, viu no talento do miúdo a sublimação das suas próprias frustrações; enquanto David deleitava os auditórios com brilhantes interpretações, o pai exigia o panteão da glória. Foi fatal para o jovem: esquecendo o excelente professor que generosamente o acompanhava, ignorando o acolhimento de uma comunidade que o queria levar longe, o pai de David fez questão de ser ele a escolher o que o miúdo tocava – e desprezou a necessidade do longo caminho que é o virtuosismo, lançando o filho no queimar das etapas que só os bons professores e as escolas atentas conhecem: David tinha que ser, não só um bom músico, mas o maior dos músicos. Convenceu-o a consumir-se no estudo da peça mais difícil da história do piano. David conseguiu tocá-la – mas no mesmo palco e na mesma hora em que foi aclamado como genial intérprete da imortal “Rach 3”, caíu derrubado pela insanidade mental. Passou 30 anos entregue aos cuidados da psiquiatria e sempre que despertava da letargia da loucura sofria de uma tristeza imensa pela condição em que se via. Tem hoje 59 anos e o seu nome não é símbolo da glória que merecia – mas de uma compaixão universal que jamais havia de querer.
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o que falha
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O que falhou com David Helfgott? Talvez o mesmo que nós, portugueses, teimamos em deixar ao acaso: A distribuição certa dos papéis da família, da escola e da comunidade, no acompanhamento que colectivamente é indispensável às capacidades de quem é único. O afecto sem técnica, a técnica com rigor, o acompanhamento desinteressado de quem faz do génio virtual um valor colectivo e humanístico – porque não há génios de perfeição em homens de espírito deformado. Afinal, faltou saber subtrair à força do acaso aquele chico-espertismo que, por cá, tão bem conhecemos.
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o caso da Covilhã

Quando, há uma década ou mais, o jovem covilhanense Filipe Quaresma escolheu como desafio de futuro a arte – esse domínio em que o talento chega ao sublime pela via da genialidade – poucos acreditaram em mais do que o sonho próprio da sua idade. Bruno Borralhinho, um outro rapaz da Covilhã, apostou no mesmo caminho e sacou das mesmas armas do talento. Ambos tomaram as vitaminas de que nem a genialidade prescinde: uma família que os compreendeu sem nada impor, uma escola que os acolheu atentamente, um professor que lhes dedicou a produção técnica e artística que os seus talentos mereciam. Nasceram, naturalmente, dois grandes nomes da arte do violoncelo a nível mundial, nas salas de uma escola covilhanense, pelas mãos de um professor beirão. Filipe e Bruno são hoje dois homens respeitados pelo talento singular adequadamente conduzido. Ao lado deles, no palco, não tardará a estar Joana Cipriano, outra menina cuja vocação de eleição começou na Covilhã um rumo que já vai na Royal Academy de Londres. Todos sairam de uma escola que os professores Luis Cipriano e Paula Ramos fizeram à medida dos grandes ninhos de talentos. Estranhamente, a mesma escola que prescindiu desses dois mentores. Estranhamente, uma escola em que o Poder Público tem o domínio e o mando. Estranhamente, uma escola que sob o domínio do Poder hoje parece não ter forças para lutar sequer pela sobrevivência. Estranhamente, tudo isto ocorre enquanto os pupilos de Luis Cipriano brilham no mundo inteiro, fora da escola dominada pelo Poder – e, mais estranhamente ainda, no seio de uma Associação a quem o Poder tem “distinguido” com a atenção de… querer fechá-la a todo o custo. É sintomático que no mesmo dia em que o grupo de Luis Cipriano era agraciado pelo Presidente da República por ter triunfado nas Olimpíadas Corais que reuniram 160 coros na Coreia do Sul, a vereação da cultura covilhanense vinha à imprensa dizer que não atribuía qualquer significado ao que considerava um “passeio turístico”.
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Fundão, o melhor e o pior
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Também no Fundão há quem se distancie do clima geral de queixume pelas culpas alheias. Durante o passado mês de Novembro, o Teatro Nacional D. Maria II e o Palácio Nacional da Ajuda deram a ver aos lisboetas e a Antena 2 deu a ouvir ao país, em 3 concertos, o que de melhor se faz em benefício dos jovens talentos musicais. O motivo dos espectáculos era, nem mais nem menos, a apresentação dos dois candidatos portugueses ao Concurso Europeu de Jovens Músicos de 2007, organizado pela U.E.R.. Os dois concorrentes que vão representar Portugal são, ambos, alunos da Academia de Música do Fundão: Francisco Franco, na classe de guitarra e Tiago Mileu no piano. Não foi só Francisco e Tiago deslumbrarem; não foi só o 3º concerto dar a conhecer a qualidade de Joana Simão e da orquestra da Academia que a acompanhou – não foi só isso tudo o que suscitou orgulho dos fundanenses mas também perguntas do país: foi também o facto de estes jovens talentos vingarem numa escola que em dez anos de funcionamento formou já um invulgar lote de excelentes artistas e insiste em dar continuidade a um currículo de que já constam cerca de uma centena de prémios em concursos no país e no estrangeiro. Tudo isso provoca admiração, mas o facto de esta escola (em que se formaram, desde o zero, as pianistas Ana José Carrolo e Teresa Doutor, que já vão longe, e em que deu os primeiros passos o extraordinário bailarino Luis Antunes) conseguir continuar a tão elevado nível causa ainda mais admiração. E a atenção que desperta nas instâncias de Poder da sua própria terra causa justificada perplexidade. Enquanto a Academia é convidada aos mais destacados palcos, enquanto produz miúdos como Tiago Mileu, que aos 12 anos fez questão de se mudar do Alentejo para o Fundão por causa da aprendizagem do piano e aos 14 já é convidado por compositores estrangeiros para executar as suas obras – enquanto isso, a Escola anda visivelmente fora das prioridades do poder fundanense. O projecto de se estruturar como Ensino Artístico Integrado, tão adequado e pioneiro como necessário, tem merecido pouco mais que a indiferença; e até na nova e onerosa infraestrutura pública para a cultura da cidade o papel destinado à Academia é simplesmente o silêncio. Parece que o cinzentismo cultural destes difíceis dias é atacado menos com a harmonia da melodia e mais com a berrância da cor.
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e, a final...
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Assim se cultiva por cá o talento – o mesmo talento que da França à China, da Inglaterra ao Japão, dos Estados Unidos à Rússia, é estimulado como valiosa matéria prima para o desenvolvimento. Assim se deixa o futuro entregue à sorte – à mesma sorte que decidiu dar a David Helfgott, não o repouso nos anais da História dos génios, mas a errância entre o banco do piano e o quarto do hospício.
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(minha crónica no nº1 da Revista A.23)