quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Ecco !

A Passo de Caranguejo
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"... desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático.
A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914.
As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou.
A pouco e pouco, o video fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da internet e da pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-pod reinventou a rádio.
Terminada a Guerra Fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de "socorro, os Turcos!".
Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado por fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos).
Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo."

"Os tempos são sombrios
Os costumes foram-se corrompendo
e até o próprio direito à crítica
Esbarra na fúria popular"


* Umberto Eco, A Passo de Caranguejo
* (Difel, 2ª edição)

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