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LIVRE, livre. E embora parem os meus pés, os meus olhos continuarão a ver”. Estas foram das últimas palavras escritas por Jokin antes de suicidar-se. Que liberdade procuraria Jokin ao atirar-se, com a sua bicicleta, do alto da muralha da sua Hondarribia natal?
Tinha 14 anos apenas e a vida já se tornara um martírio. Era incapaz de se revoltar, de gritar, de denunciar os actos de violência de que estava sendo vítima na sua escola. Actos de violência física e psicológica a que o sujeitavam alguns dos seus colegas de escola, com a complacência de alguns professores que sabiam e nada fizeram para resolver o problema.
É certo que estamos a viver uns tempos em que a violência se tornou algo de trivial. De tal modo que ela é o pão-nosso de cada dia e a aceitação dela é, cada vez mais, terreno de boa sementeira.
O que poderá levar um adolescente de 14 anos a suicidar-se? Que sofrimentos, que problemas, que desespero infernizarão a sua vida? E os pais deste jovem basco: por onde andavam, o que faziam, como o acompanhavam? Será que não se apercebiam de nada.
Na adolescência somos eternos, como adultos desconfiamos da eternidade, na velhice é preciso um grande esforço para que ela não nos fuja definitivamente. Jokin era um jovem estudante como milhões espalhados pelo mundo só que teve a pouca sorte de frequentar uma escola onde alguns companheiros resolveram fazer-lhe a “vida dura”, sob o olhar tolerante e indiferente de professores e funcionários.
Aquilo a que os americanos chamam “bullying” (violência nas escolas) tem sido objecto de vários estudos e abordagens por parte de sociólogos e criminólogos, porque se está a tornar uma autêntica calamidade. Daí a pergunta: em que territórios se estão a transformar as nossas escolas? Deixaram de ser lugares de prazer, de aprendizagem, de convívio, de crescimento... para se transformarem em espaços, onde reina a burocracia, os regulamentos, a disciplina, a ordem, a violência, o desinteresse!
Onde há pessoas, há problemas e onde há problemas há soluções para os resolver. Mas é preciso querer resolvê-los e não “deixar andar”, porque ficar indiferente é mais cómodo – fazer de conta que não se vê e não se sabe – mas é imoral. Não é possível que numa escola toda a gente diga que não sabe ou que não viu: é preciso ver e é preciso saber.
Jokin só encontrou no suicídio a solução para os seus problemas e o caminho para ser livre, ou melhor se ver livre das humilhações, das agressões físicas, do tormento que era a sua vida. Voou com a sua bicicleta, talvez a única confidente a quem nada escondia, para a morte. E sentiu--se livre, livre…
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* José de Jesus Amaro (Inter&ores) JF 15.Jul.2005
LIVRE, livre. E embora parem os meus pés, os meus olhos continuarão a ver”. Estas foram das últimas palavras escritas por Jokin antes de suicidar-se. Que liberdade procuraria Jokin ao atirar-se, com a sua bicicleta, do alto da muralha da sua Hondarribia natal?
Tinha 14 anos apenas e a vida já se tornara um martírio. Era incapaz de se revoltar, de gritar, de denunciar os actos de violência de que estava sendo vítima na sua escola. Actos de violência física e psicológica a que o sujeitavam alguns dos seus colegas de escola, com a complacência de alguns professores que sabiam e nada fizeram para resolver o problema.
É certo que estamos a viver uns tempos em que a violência se tornou algo de trivial. De tal modo que ela é o pão-nosso de cada dia e a aceitação dela é, cada vez mais, terreno de boa sementeira.
O que poderá levar um adolescente de 14 anos a suicidar-se? Que sofrimentos, que problemas, que desespero infernizarão a sua vida? E os pais deste jovem basco: por onde andavam, o que faziam, como o acompanhavam? Será que não se apercebiam de nada.
Na adolescência somos eternos, como adultos desconfiamos da eternidade, na velhice é preciso um grande esforço para que ela não nos fuja definitivamente. Jokin era um jovem estudante como milhões espalhados pelo mundo só que teve a pouca sorte de frequentar uma escola onde alguns companheiros resolveram fazer-lhe a “vida dura”, sob o olhar tolerante e indiferente de professores e funcionários.
Aquilo a que os americanos chamam “bullying” (violência nas escolas) tem sido objecto de vários estudos e abordagens por parte de sociólogos e criminólogos, porque se está a tornar uma autêntica calamidade. Daí a pergunta: em que territórios se estão a transformar as nossas escolas? Deixaram de ser lugares de prazer, de aprendizagem, de convívio, de crescimento... para se transformarem em espaços, onde reina a burocracia, os regulamentos, a disciplina, a ordem, a violência, o desinteresse!
Onde há pessoas, há problemas e onde há problemas há soluções para os resolver. Mas é preciso querer resolvê-los e não “deixar andar”, porque ficar indiferente é mais cómodo – fazer de conta que não se vê e não se sabe – mas é imoral. Não é possível que numa escola toda a gente diga que não sabe ou que não viu: é preciso ver e é preciso saber.
Jokin só encontrou no suicídio a solução para os seus problemas e o caminho para ser livre, ou melhor se ver livre das humilhações, das agressões físicas, do tormento que era a sua vida. Voou com a sua bicicleta, talvez a única confidente a quem nada escondia, para a morte. E sentiu--se livre, livre…
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* José de Jesus Amaro (Inter&ores) JF 15.Jul.2005