quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

"É que é já... a seguir!"

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“O dinheiro é mais útil que a pobreza, quanto mais não seja, por questões financeiras.”
Woody Allen “Deus, Shakespeare e eu”

Comecei a gostar de ler por causa de dinheiro. A minha mãe tinha uma mania de poupança que era guardar umas notas graúdas de conto em livros, da mesma forma com que os velhotes forram colchões Picolin com a maçaroca. Como habitualmente se esquecia da poupança refundida, lá andava eu ao pinga escudo, a devorar literatura da pesada. Uma autêntica caça ao tesouro que rendia os maravedis necessários para esbanjar em guelas e na colecção de cromos do Mundial de 82. O melhor achado foi na Divina Comédia de Dante em que no Inferno reluzia uma bem verde nota de cinco contos. Foi assim que completei a selecção da Argélia e do Kuwait, com os cromos difíceis, como o fantasista Ladkhar Beloumi, o melhor futebolista argelino de todos os tempos, antes claro do toque de calcanhar de Midas Madjer.

Aquela mania do aforro literário deu uma forte contribuição pedagógica para a minha formação cultural, mas mais importante que tudo isso, fez-me perceber a importância do dinheiro para aquisição de bens essenciais – guelas, cromos, e pastilhas gorila de banana. Como diz com propriedade e graça um amigo meu “o dinheiro também tem a sua poesia”. Toda a gente sabe que o dinheiro não cai do céu, se descontarmos os milhões de marcos que a RAF largava sobre a Alemanha.

A verdade nua e crua é que o valor do dinheiro depende da sua escassez, e de nada valia andar a esgravatar a Biblioteca Nacional na esperança de um bibliotecário aforrista, como a minha mãe, lá ter incautamente deixado uma notita de 10 contos. Quando se começa a dar valor ao dinheiro está o caldo entornado. Deixamos de pensar em abafadores e bolas de Berlim para deitarmos contas à vidinha e sonhar com telemóveis, férias em Bora-Bora, ténis Nike, Audis Tdi`s e sofás reclináveis com massagista incorporada. Graças ao Montepio Geral e a outras simpáticas instituições de crédito, podemos olhar para essas aspirações e gritar a plenos pulmões – É que é já … a seguir!

O Estado português dá o exemplo e parece um daqueles estoura-vergas que torravam a fortuna de família no Casino da Figueira da Foz e inventavam expedientes mais artolas para manter as aparências da aristocracia falida. Os portugueses sempre foram uns tesos à espera de uma herança, um treze no totobola, de uma notita de conto num livro de Pantagruel, ou que a RAF fizesse um raid sobre o seu quintal. Não estranha por isso que o Estado português se trate com carros de alta cilindrada para directores-gerais, comboios de alta velocidade, Euros 2004 e reformas milionárias para os obscuros vice-consulados no Sri Lanka.

É tramado dizer isto, mas o Estado português é mais parecido com os portugueses do que nós gostaríamos de supor. Basta perguntar ao Dr. Hermano Saraiva, que caminho levou a dinheirama dos Descobrimentos para descobrir um paralelo histórico com os fundos estruturais da CE. Naquela época foram para perucas empoeiradas a talco e palacetes na Baixa, agora vão para campos de golfe e jipes. É este traço de nacionalidade, mais perene que debulhar caracóis e enfardar bejecas no Verão, que o nosso Presidente da República parece desconhecer quando apela aos Bancos para limitarem o crédito e apoiarem investimentos reprodutíveis. Parece não saber que a nossa Banca também anda a viver à conta do fiado internacional e que qualquer dia o Dr. Vítor Constâncio tem plantado à porta do Banco de Portugal um Cobrador do Fraque…

Por tradição, a banca portuguesa é propensa à agiotagem e ao lucro fácil, e isso até nos convém. Preferimos empenharmo-nos até às orelhas do que ficar sem o carrinho novo (aquele com jantes de liga leve, leitor mp3 e Diesel económico, mas possante, para não passar vergonhas na estrada, nem no parque de estacionamento do condomínio). Por isso, caro Presidente, não se meta onde não é chamado e vá lá pregar esse paternalismo choramingas para outra freguesia, que cá nos vamos remediando como podemos com o fiado.

Antes viver a crédito do que morrer a crédito como no romance do Céline; afinal até os funerais, que estão pela hora da morte, se podem pagar em suaves prestações mensais.
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* Rui Pelejão Marques (Contra-Vapor), JF de 15.Jul.2005