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Sartre

Posted by Hello
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ASSINALOU-SE esta semana o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (21 de Junho de 1905, em Paris), mas desde o início do ano que, um pouco por todo o lado, a figura e a obra do filósofo estão a ser recordadas. Dizer que é um nome destacado do pensamento universal, é pouco mais que nada. Porque Sartre foi muito mais longe: foi reconhecido como “a consciência do seu tempo”. Desde logo pela razão simples de, assumindo-se como escritor, projectou-se nas situações concretas, nos itinerários de uma vida muito cheia, nos caminhos de uma liberdade que se revela a síntese de toda uma vida. Autor de obras fundamentais, de projecção universal pela condição humana que retratam, desde “A Nausea”, de “O Ser e o Nada”, “As Moscas”, “A Idade da Razão”, “Mortos Sem Sepultura”, “As Mãos Sujas”, “Situações”, e uma vasta obra ensaística e de intervenção, o seu livro “O existencialismo é um humanismo?” tornou-se numa questão central do pensamento filosófico do século XX. Como escreveu François George, num excelente número do Magazine Littéraire, “numa época orfã de Deus, Sartre propôs fazer o homem, cuja única natureza é o futuro”. É um intelectual empenhado na transformação das coisas, que põe tudo em questão. Recusa o Prémio Nobel da Literatura, e, em Maio, vêmo-lo ao lado dos estudantes, como mais tarde, em Lisboa, ao lado dos soldados do MFA. Incarnou, como ninguém, a consciêrncia da esquerda. Certos defensores da Argélia francesa, pediram a De Gaulle a sua prisão. O velho General responde: “Não se prende Voltaire!”
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“QUANDO os ricos fazem a guerra, são os pobres que morrem”, escreveu Jean-Paul Sartre em O Diabo e o Bom Deus. O humanismo é um fio condutor do seu pensamento. O homem é a grande questão. Sobre a importância do filósofo, o Prof. Eduardo Lourenço (ver A Capital de 21 de Junho) é, como sempre, luminoso. Disse ele: “O mais importante no pensamento de Sratre é a ideia de que a liberdade é um dado original e que se confunde com a existência. Não há um mundo de valores pré-determinados, em relação aos quais possanos definir a nossa acção, o nosso sistema de valores e os nossos ideais. Eles devem ser criados como se fôssemos deuses. Portanto, não há esfera de transcendência. Sartre preconizava uma filosofia da liberdade radical, que determina os horizontes da acção ética. Encarnava no quotidiano a ideia de um ser livre. Nunca quis, porém, ser um mestre do pensar, quis ser um anarquista consciente. Foi este absolutismo da existência humana como sendo radicalmente livre que impressionou a sua geração, que se identificou com o pensamento de que a única transcendência é a nossa própria existência”. De facto, Sartre era um “inventor de liberdade”. E nesse compromisso se implicava no concreto dos dias, juntando-se a trabalhadores em greve, incitando à revolução os estudantes, em Maio de 68, solidário sempre com a conquista da liberdade, como aconteceu com o 25 de Abril, em Portugal. O seu rosto – é um rosto do nosso tempo.
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* Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão de 24.Jun.2005