
Numa coisa tem Sócrates razão: este PSD está irreconhecível. A consistência de Sá Carneiro, a convicção de Mota Pinto, a sobriedade de Cavaco Silva e mesmo a tenacidade de Durão Barroso – tudo atributos que os laranjas se arrogavam – têm em Santana Lopes uma reprodução menos que caricatural.
. - . -Hoje Santana saíu-se com mais uma peregrina tentativa de origina- lidade, que nos faz pensar que as suas assessorias de mensagem andam completamente perdidas: desafiou Sócrates a adoptar o “princípio” segundo o qual quem perder deve demitir-se de leader do seu partido.
. - . - É a barracada ideológica no seu pior.
. - . - Já nem merece a facécia que se lhe auscultem as raizes psicológicas (“já que vou ser corrido, deixa-me avançar que o sou porque quero…”). Já nem merece que se comente este desconchavo intelectual que é pretender-se definir uma regra para a lógica da direcção partidária do adversário – como se tal destrambelhada ideia tivesse em si carácter de padrão universal de conduta política…
. - . - O mais, o pior deste insólito desafio é o que ele, na sua essência, revela: a perspectiva de que o teste eleitoral a que os candidatos se submetem se esgota na avaliação das capacidades de liderança afirmadas perante os pares do próprio partido.
. - . - E os programas, as causas, a ideologia, os princípios? Perdem-se ou abandonam-se logo que se averba uma derrota no terreno eleitoral? Leader e seguidores estão então irmanados em torno de quê?
. - . - Quer então tudo isto dizer que Santana Lopes norteia a sua vida política pelo facto de chegar ou não chegar, ele, a primeiro-ministro. Não conseguindo esse seu objectivo, a sua luta política terá perdido o sentido – e a razão de ser…
. - . - Que se façam os candidatos, todos e mutuamente, um desafio ao contrário: o do compromisso de que, quem perder, continuará a lutar por aquilo em que acredita; o de que as propostas e ideias que se pretendem como as melhores para o país não serão abandonadas quando se passa para a oposição (até para que haja oposição e… democracia!). Afinal, o de que aqueles que abraçam o combate político o fazem em nome de valores, pelos quais são capazes de suportar uma derrota, na crença de que a derrota da razão é sempre temporária.
. - . - Quem não tiver essa convicção deve, sim, demitir-se de leader partidário – porque demitido já estará da sua própria idoneidade cívica.