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O VOTO EM CLARO
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. - . - Desta vez, ainda a campanha eleitoral mal abriu oficialmente e já vieram quatro.
. - . - O quarto era, como todos os outros, velho conhecido e dedicado cliente. Tinha hora marcada, não trazia papeis e começou logo por dizer ao que vinha: que bem sabia que o meu tempo era precioso, que felizmente não precisava de ficar a dever, que é bonito é estarmos os dois sempre à vontade. Queria pagar o conselho, mas não era de leis que precisava: era de orientação para votar.
. - . - Isto é uma mancha na nossa democracia, mas uma mancha branca - pensei mais uma vez. Sorri como de costume.
. - . - O velho Diamantino é um homem diferente. Nada de "isto já não tem conserto", nada de "o mundo está de pernas para o ar", nada disso. Apenas, desta vez, uma reticência acrescentada à interrogação habitual: o homem vinha disposto a pagar o conselho para votar "em consciência", se eu visse que lho podia dar.
. - . - Perspectiva sombria acerca dos protagonistas da ribalta eleitoral. Desenganado sentido de observação das promessas e das capacidades. Mas o desencanto não é pessimista no "tio" Diamantino. Quer votar e precisa de ajuda - e ponto final.
. - . - Dos males da economia e das leis do mercado sabe ele, pela sua linguagem: fez um belo couval para o Natal e nem uma couve vendeu - mas sem surpresa, que bem sabemos todos disto dos hipermercados. As questões do emprego e das políticas sociais vieram por uma narrativa chã e sóbria: Diamantino, ainda rapaz à procura de se governar depois do regresso da guerra na Índia, foi uma temporada à jorna para Setúbal, que a época em que por lá se colhe a laranja é de pousio por aqui; no mercado abastecedor viu um garoto a pedir esmola - e o velho pescador, que veio a ser seu sogro, puxou o miúdo para a lota; "se tem fome, não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar". Por instinto ou por hábito da minha condição cultural, quase deixei sair a pergunta de onde tinha ele lido a parábola...
. - . - E foi escorrer honradez, com exemplos, metáforas e máximas a jorrar pela forma mais simples. Um dos "casos", a valer por todos, o do filho que se lhe perdera no vício - do jogo, "por cima do vinho". Os netos a ficarem-lhe desgovernados ante o pai que só sabia dizer que não havia dinheiro, a escola a começar a ser tempo mal empregue, e até numa ocasião já não havia para a rapariga ir à consulta. "Fez-se o que tinha de se fazer, os cachopos já iam para homens, a rapariga não havia quem lhe apontasse o dedo... e o tipo na estroina!". Tirou-se-lhe o mando e meteu-se o tipo na linha.
. - . - Assim era e havia de ser. Quando um homem só quer o "mando" para governar a vaidade e os demais vícios próprios, ou na primeira dificuldade é ele que deserta ou depressa se lhe tira o bordão. "E isto está a ir de tal maneira que, um dia destes, a um punhado de homens bons dói-lhes". Ainda há quem tenha amor à sua terra e amizade aos demais.
. - . - Sabe da vida, o velho Diamantino. Tanto que pelo meio da lição que me ia dando se apercebeu do meu próprio desapontamento. E atalhou-o de pronto: "Não se preocupe, que as coisas compõem-se; em primeiro eram os sábios que governavam, agora estamos na fase dos espertos tomarem conta do poder, mas há-de estar aí a vir outra fase, que homens de honra e vergonha também os há".
. - . - Tudo tão simples como isto. Já de pé, ainda rematou: "sabe o que lhe digo? estes políticos só têm argumentos contra este, contra aquele, uns contra os outros... um dia destes o povo faz-lhes a vontade e vota contra eles todos".
. - . - Diamantino, o homem que me lembrou que a História marcha por "fases", saíu sem levar indicação de em quem votar. E eu fiquei, sem frustração, apesar de também não ter conseguido dele o que esperava: orientação para o meu voto.