quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

quadratim - 9

Posted by Hello
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"Desde que há documentos escritos, provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa.
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Os objectivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objectivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objectivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objectivo da classe Baixa, quando algum objectivo tem - pois a característica persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana - consiste em abolir todas as distinções criando uma sociedade em que todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da História, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas, sempre a mesma. Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. (...) Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças históricas pouco mais representam que a mudança de nome dos chefes."
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"... na quarta década do século XX já todas as grandes correntes do pensamento político se tinham tornado autoritárias.
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A nova aristocracia compunha-se, na sua grande maioria, por burocratas, cientistas, técnicos, dirigentes sindicais, publicitários, sociólogos, professores, jornalistas e políticos profissionais. Esta gente, oriunda da classe média assalariada e dos escalões superiores da classe trabalhadora, fora moldada e amalgamada pelo mundo estéril da indústria monopolista e dos governos centralizados. Tratava-se de indivíduos que, em comparação com os seus pares de épocas anteriores, mostravam-se menos avarentos, menos sujeitos à tentação do luxo, mais ávidos de poder puro e, acima de tudo, conscientes do que estavam a fazer e mais decididos a esmagar toda e qualquer oposição. Esta última diferença é crucial. Comparadas com as actuais, todas as tiranias do passado foram tímidas e ineficazes. Os grupos dominantes, até certo ponto, sempre se deixaram contaminar pelas ideias liberais, e permitiam que inúmeros domínios escapassem ao seu controlo, contentando-se em tomar apenas em consideração actos explícitos, sem se interessarem pelo que pensavam os súbditos. Pelos padrões actuais, até a Igreja Católica da Idade Média foi tolerante. Explica-se isto em parte pelo facto de no passado nenhum governo ter capacidade para manter os seus cidadãos sob vigilância constante. A invenção da imprensa, no entanto, tornou mais fácil manipular a opinião pública, e o cinema e a rádio levaram ainda mais longe o processo. Com o desenvolvimento da televisão e os avanços técnicos que tornaram possível emissão e recepção simultâneas através do mesmo aparelho, a vida privada acabou. Cada cidadão, ou pelo menos cada cidadão suficientemente importante para valer a pena vigiá-lo, pode ser mantido vinte e quatro horas debaixo dos olhos da polícia e sob a influência da propaganda oficial, com todos os outros canais de comunicação cortados. A possibilidade de impor a todos os súbditos não só obediência absoluta à vontade do Estado, mas também uma absoluta uniformidade de opinião, existe agora pela primeira vez."
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(George Orwell, 1984)