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POR UMA BOA ZARAGATA
. - . . - Vivemos na era dos media.
.. - . - Aquele que foi o “quarto poder” afirmou hoje com autoridade porque é de facto o primeiro. Demonstrou-o com a anuência e a comparticipação dos dois principais candidatos a primeiro ministro. Fê-lo através de um inédito simultâneo dos dois principais canais da televisão portuguesa (aquele que primeiramente assumiu a cultura pimba como linha editorial e aqueloutro que até mais tarde resistiu à abdicação da qualidade no pequeno ecrã). Praticou-o como organizador do espectáculo, árbitro do jogo e manager do circo. Impôs as regras, fez a arguição – que lhe competia – segundo os seus próprios critérios, e não precisou de mandar os “artistas” fazerem os números do programa: eles mostraram desde o início que não estavam lá para outra coisa.
.. - . - Aquele que foi o “quarto poder” afirmou hoje com autoridade porque é de facto o primeiro. Demonstrou-o com a anuência e a comparticipação dos dois principais candidatos a primeiro ministro. Fê-lo através de um inédito simultâneo dos dois principais canais da televisão portuguesa (aquele que primeiramente assumiu a cultura pimba como linha editorial e aqueloutro que até mais tarde resistiu à abdicação da qualidade no pequeno ecrã). Praticou-o como organizador do espectáculo, árbitro do jogo e manager do circo. Impôs as regras, fez a arguição – que lhe competia – segundo os seus próprios critérios, e não precisou de mandar os “artistas” fazerem os números do programa: eles mostraram desde o início que não estavam lá para outra coisa.
- . - Formato do show: à americana (leia-se: à medida dos telespectadores americanos). Televisão como uma sala de aula, moderador na cátedra, políticos na bancada do concurso. Jornalistas na posição de arguentes, do lado da perspectiva do público, e ostentando os sinais luminosos que vão dando a indicação do andamento do teste, a caminho da reguada ou do quadro de honra. Candidatos direitinhos na forma, com os textos de consulta e as cábulas rigorosamente dentro dos padrões de normalização do manual de instruções; palavras-chave antecipadamente submetidas ao controlo de “qualidade”, para as respostas previsíveis e previstas.
. - . - Rolou o jogo. Jogo sem tempo de compensação para além dos noventa minutos (duas partes de 45 separadas por intervalo para afinação das táticas), numa única mão e a eliminar. Proibido o K.O. (antes que fosse recíproco...) e, com o empate mais do que à vista e o rotundo falhanço nos penalties, atribuição da vitória aos pontos.
. - . - No final, o veredicto do painel jornalístico: “Ganharam os que ficaram de fora”. E o público aliciado a uma conclusão: Carlos Magno ao poder!
. - . - A verdade é que foi o Magno jornalista quem, a final, deu o sumo da salada: os candidatos nada trouxeram a mais do que a postura mediática aturadamente conquistada, os chavões programáticos fastidiosamente anunciados, as palavras de subliminar persuasão meticulosamente auditadas. Portaram-se bem demais os artistas - terminou o analista - “os portugueses precisam é de uma boa zaragata”.
. - . - Honestamente, nem tudo terá sido assim. Houve propostas concretas – para o emprego, a qualificação profissional, a correcção das assimetrias sociais, a modernização. E, diga-se, através disso perpassou alguma desigualdade de forças num debate que teve, à sua maneira e segundo as regras do jogo, um vencedor e um vencido.
. - . - A questão – e o pior, ao cabo e ao resto – é que, mesmo havendo programas e propostas, mesmo havendo quem queira estagnação e quem anuncie mudança, mesmo havendo uma diferença entre quem seduz com a palavra "compromisso" e quem promete com menção a "objectivos", mesmo assim e com tudo isso, o eleitor não topa, porque não confia, porque não acredita.
. - . - Tudo visto e concluído, o povo não acredita e, em bom rigor, o seu cepticismo já não decorre da falta ou insuficiência das propostas - assenta na redonda falta de credibilidade das pessoas que se propõem protagonizar as políticas necessárias. Leaders e staffs respectivos, pelo que os seus curricula já têm e já mostraram não ter, não conseguem junto do eleitorado a imagem que mais perseguem os chavões dos seus discursos: confiança e competência.
. - . - Uma das lições que os candidatos hão-de ter tirado é a de que, no terreiro da imagem, os holofotes do estúdio fazem confundir obscuridade com obscurantismo das ideologias. E o obscurantismo, quebrado pela clarividência de um Carlos Magno a imperar, pode sugerir que de "Idade dos Media" até "Idade Média" vá menos que uma hipérbole.
. - . - Que fique, então, a síntese do analista: os que ficaram de fora foram no debate o maior vencedor; e os que assistiram são na campanha o maior vencido.
. - . - Rolou o jogo. Jogo sem tempo de compensação para além dos noventa minutos (duas partes de 45 separadas por intervalo para afinação das táticas), numa única mão e a eliminar. Proibido o K.O. (antes que fosse recíproco...) e, com o empate mais do que à vista e o rotundo falhanço nos penalties, atribuição da vitória aos pontos.
. - . - No final, o veredicto do painel jornalístico: “Ganharam os que ficaram de fora”. E o público aliciado a uma conclusão: Carlos Magno ao poder!
. - . - A verdade é que foi o Magno jornalista quem, a final, deu o sumo da salada: os candidatos nada trouxeram a mais do que a postura mediática aturadamente conquistada, os chavões programáticos fastidiosamente anunciados, as palavras de subliminar persuasão meticulosamente auditadas. Portaram-se bem demais os artistas - terminou o analista - “os portugueses precisam é de uma boa zaragata”.
. - . - Honestamente, nem tudo terá sido assim. Houve propostas concretas – para o emprego, a qualificação profissional, a correcção das assimetrias sociais, a modernização. E, diga-se, através disso perpassou alguma desigualdade de forças num debate que teve, à sua maneira e segundo as regras do jogo, um vencedor e um vencido.
. - . - A questão – e o pior, ao cabo e ao resto – é que, mesmo havendo programas e propostas, mesmo havendo quem queira estagnação e quem anuncie mudança, mesmo havendo uma diferença entre quem seduz com a palavra "compromisso" e quem promete com menção a "objectivos", mesmo assim e com tudo isso, o eleitor não topa, porque não confia, porque não acredita.
. - . - Tudo visto e concluído, o povo não acredita e, em bom rigor, o seu cepticismo já não decorre da falta ou insuficiência das propostas - assenta na redonda falta de credibilidade das pessoas que se propõem protagonizar as políticas necessárias. Leaders e staffs respectivos, pelo que os seus curricula já têm e já mostraram não ter, não conseguem junto do eleitorado a imagem que mais perseguem os chavões dos seus discursos: confiança e competência.
. - . - Uma das lições que os candidatos hão-de ter tirado é a de que, no terreiro da imagem, os holofotes do estúdio fazem confundir obscuridade com obscurantismo das ideologias. E o obscurantismo, quebrado pela clarividência de um Carlos Magno a imperar, pode sugerir que de "Idade dos Media" até "Idade Média" vá menos que uma hipérbole.
. - . - Que fique, então, a síntese do analista: os que ficaram de fora foram no debate o maior vencedor; e os que assistiram são na campanha o maior vencido.