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Eram 17 de Fevereiro e estava frio. Frias as ordens da vida que me fizeram tardio para acompanhar um amigo na sua última viagem. Morreu com a minha idade e pela força do coração. Morreu um companheiro, de outros tempos, os tempos que ficam para sempre. Morreu um companheiro de inquietações, de sonhos, da irónica teimosia do cepticismo - daqueles que uns deixam que a Vida lhes amanse e outros compreendem como irrenunciável preservação da identidade. Partiu um companheiro dos dias melhores, dos ideais melhores, das lutas melhores. Perdeu-se um companheiro dos melhores.
Um grupo de amigos deixou-lhe uma mensagem no Jornal do Fundão. "Ao João Sabino", simplesmente. Palavras que são a pincelada no centro da esquadria, palavras que o Sabino há-de receber, como quer que as receba. Palavras que mais este amigo, distante só no tempo, com uma sentida lágrima de "até sempre" subscreve:
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"Disse Proust de um seu amigo prematuramente morto que 'nos seus olhos viam-se alternar as sombras do pressentimento e a doce luz da resignação'. Talvez esta imagem calhe também agora ao João Manuel. Quem o conheceu longamente gozando do eflúvio de uma amizade estreita, e pôde contactá-lo, ainda que de longe em longe, nos últimos tempos da sua vida, retira dessa convivência uma impressão que quase se pode assim definir. Uma doce resignação à vida clausurada entre os excessos de prazeres sublimes - o deleite da música quase em permanência (Bach eterno, Rossini eleito...), o gosto da grande literatura (Camilo devorado e saboreado até às entranhas, D. Quixote exaltado pelo estrondo da literatura de Aquilino...), a conversa durável e calorosa sobre um país aos pinotes que continuava a observar como que à luz de um MRPP antigo - e ainda outros excessos mais temerários (ah! o fumo companheiro) e mínguas. Digamos mínguas, se a vida depois prescindisse desses enfeites que dão soberba ao homem conveniente e que o João trocaria pelas laranjas do seu quintal e pelos gatos ladinos de ao pé da cama. (...)"