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TRIGO E JOIO
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Na entrada de Janeiro - e ao mesmo tempo que os partidos políticos abrem a público a escolha dos nomes para as eleições legislativas do próximo mês - Manuel Frexes anunciou que nas autárquicas do final do ano se recandidatará à câmara municipal do Fundão.
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Ainda não estão à vista os adversários (e o plural refere-se tanto às listas das forças políticas como ao colectivo socialista que há-de fazer - ou não - a efectiva disputa do voto), mas até por isso começa a ser tempo de perceber/avaliar o sentido e o alcance das propostas de continuidade do actual chefe do executivo concelhio.
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No mandato que agora vai a caminho do final, a administração de Frexes teve - e é justo, para ele e para os eleitores, que se separem - trigo e joio.
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Nestes três anos o Fundão mudou bastante - e em muito mudou para melhor. Na cidade, o abastecimento de água, primeira promessa eleitoral, foi significativamente melhorado. A requalificação das vias de acesso principal estava já projectado e programado, mas continuava por fazer - e foi feito, com o acrescido mérito de ter servido de pretexto para o lançamento de um programa de reordenamento das vias urbanas e de circulação periférica. A cultura deixou de ser tratada com o borgesso desprezo que fazia do concelho um vergonhoso exemplo - e um ou outro foguetório bacoco, como o show a que se associou o baptismo do pavilhão multiusos, acabam por ter sido gotas de água num mar novo de cultura que indiscutivelmente se espraiou pelo concelho. A reconversão do que era possível ressuscitar do parque urbano do antigo mercado foi agarrada pelas pontas que lhe restavam, atalhando uma das maiores atrocidades urbanísticas que contra a malha da cidade tinham sido cometidas. E, no que pode vir a ser a viragem mais substancial da fisionomia do concelho, a ideia da simbiose turismo-história-ambiente para a perseguição de uma marca de singularidade a nível nacional começou por onde podia ter começado. Estava tudo por fazer e só podia começar-se a fazer. Mas fez-se o começo.
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Nenhum fundanense de boa fé poderá ignorar este salto qualitativo, que já há muito se impunha mas que continuava em espera.
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Mas nem Manuel Frexes nem os seus mais entusiásticos apaniguados podem esconder ou esquecer que a contrapartida deste salto foi um preço muito caro; literalmente.
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O corrupio de lugares destinados a favores políticos, inflacionados, inventados e até escandalosamente sobrefacturados - com a hiperdimensão de serviços e o arranjo de assessorias tão mal escamoteadamente políticas quanto tecnicamente inúteis e (por isso) perniciosas - não foi apenas uma atitude politicamente reprovável; foi postura civicamente injusta, porque desprezou o princípio do acesso aos lugares pelo mérito; e, até por isso, filosofia de desperdício de energias vivas que podiam beneficiar o concelho. Do favorecimento à mediocridade cultural e ao pântano ético foi um passo, gerador de um regimento de néscios ridiculamente arrogados donos de uma terra que não conhecem, quando não de um mundo de que nada sabem. E da arregimentação ao despesismo foi apenas outro passo. A incontinência despesista não foi só um acto de má gestão da res publica; foi mau exemplo e desincentivo do rigor que à região tanta falta tem feito; foi também detonador de um sectarismo arrogante, com todas as nefastas consequências na prática cívica e democrática que ele sempre comporta; e foi, por sobre tudo isso, abissal erro de perspectiva no mais essencial do acto de gerir: a racional destinação das verbas obtidas à realização das obras a fazer. O que se gasta em excesso não é apenas luxo naquilo que se faz - é falta para o mais que há por fazer.
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No balanço do mandato, a separação entre o trigo e o joio estará, afinal, na destrinça entre o que se fez e como se fez.
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Manuel Frexes, que chegou à câmara do Fundão com oportunidade - e ferramentas próprias, diga-se - para conseguir um lugar de relevo na história do concelho, estará a tempo de arrepiar esse caminho; bastar-lhe-á que compreenda e faça a sua equipa assimilar, nos propósitos e nos métodos, o equilíbrio entre o que há por fazer e o modo como se deve fazê-lo. E quem quiser fazer-lhe oposição há-de por-se à demonstração de que percebe e é capaz de protagonizar esse equilíbrio, num mais ou menos diferente sonho de um Fundão novo.
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A ordem do dia das autárquicas reconduzir-se á, afinal, à eterna questão de quem compreende e se dispõe à conformidade dos fins com os meios. À concordância do poder com o dever.