Ulisses e a China
A notícia diz que a “China pousou em Marte pela primeira vez”, mas nenhum chinês vai dentro da nave e um país não pousa num planeta porque um país é coisa pesada e parada (só quando invade é que se mexe um bocadinho) e um planeta não é uma superfície receptora de países, não é um aeroporto que diga bem-vindo a quem vem do alto para ocupar a sua superfície.
A notícia diz que “a China pousou em Marte pela
primeira vez”, mas eu desconfio.
O que pousou em Marte, portanto, foi a maquinaria
chinesa, a vontade chinesa, mais precisamente.
Não vou eu, mas vai a minha vontade.
Imagino alguém que, em vez de subir com as suas pernas
e pulmões aos Himalaias, mandasse um robô, com motor, mas sem pernas nem
pulmões nem nada.
A vontade humana vai sempre à frente dos pés do humano
que tem essa particular vontade, isto é antigo.
A vontade vai antes porque a vontade é leve e se a
vontade morrer não morre nada demais a não ser um impulso, e o humano tem, se
necessário, vários impulsos por dia.
Tenho tantas vontades como direcções na bússola
inquieta que existe na minha cabeça. Isto poderia dizer alguém que falasse
desta maneira, mas hoje há pouca gente a falar desta maneira, hoje a conversa
mais profunda é: gosto, não gosto — e já está excelente, adorei falar consigo,
que estimulantes são os seus argumentos.
Gosto, não gosto são os dois argumentos do século XXI.
Nas discussões começa-se pelo fim porque no século XXI
há uma certa pressa.
O humano está no século XXI como se estivesse
constantemente atrasado.
E a cabeça do outro que não concorda com a minha
cabeça é para cortar rente, não com lâmina ou guilhotina, que não somos tão
revolucionários assim, mas pelo menos que se corte o pio (ou seja a língua) ou,
se não der para isso, pelo menos que se corte a electricidade do sujeito, que
ele use altifalante como no século XX ou a voz como os sopranos usam, sem microfone
nem internet.
Portanto: o vivo que tinha uma vontade e a perdeu,
ainda assim fica vivo, apto, pois, a receber de dentro ou de fora outras
vontades.
A China tinha vontade de ir a Marte e a vontade há
muito que não se traduz em coragem física, mas sim em planeamento técnico e
oficina meticulosa.
No tempo de Homero, as vontades de Ulisses eram
exercidas pelos pés, pernas, tronco, braços e cabeça, numa mistura entre
coragem, força e uma pitada de ficção, claro, porque se a coragem não pode
tudo, a ficção está lá para fazer o que falta.
No século XXI, um corajoso Ulisses que queira pôr-se
em viagem para o planeta Marte fica com a coragem inteira, não utilizada, na
sua cadeira e em casa.
GOSTO, NÃO GOSTO SÃO OS DOIS ARGUMENTOS DO
SÉCULO XXI. NAS DISCUSSÕES COMEÇA-SE PELO FIM PORQUE NO SÉCULO XXI HÁ UMA CERTA
PRESSA. O HUMANO ESTÁ NO SÉCULO XXI COMO SE ESTIVESSE CONSTANTEMENTE ATRASADO
Não é com coragem que se vai a Marte, mas com motor e
algoritmos novos.
Ulisses, hoje, era dispensado logo à partida.
Quem não percebe de informática e motores é
intelectualmente um sujeito do século XX, século XIX e por aí abaixo.
Podemos cumprimentar no século XXI um sujeito
analfanumérico mas esse sujeito que mal sabe contar 1, 2, 3 está na verdade no
século passado.
Quem não sabe programar está desactualizado.
Ulisses hoje, quando muito, era aceite nas touradas,
nas pegas directas em que o touro vem com a força que tem.
E isto é uma característica do touro: o touro vem com
a força que tem. Não guarda nada para o futuro, como faz o humano que armazena
força, comida e planos para o próximo Inverno.
Para o touro tudo o que não está à sua frente não
existe e assim a vida está muitíssimo bem.
“A missão não tripulada Tianwen-1 da China pousou numa
zona de Marte que se chama Utopia”, diz ainda a notícia.
Em tempos, os espaços brancos no mapa do planeta Terra
assinalavam zonas por descobrir que esperavam por um nome.
Uma das ilusões dos séculos passados era a de que os
espaços em branco, ainda sem maquinaria, esperavam avidamente por um nome e não
um nome qualquer — um nome europeu, pois claro.
Como se o próprio espaço, quer fosse bem quente ou de
fazer tremer os dentes, passasse mal das suas doenças bem próprias pelo facto
de não ter um nome europeu que o aconchegasse, ou seja, que o salvasse.
O robô Zhurong da missão Tianwen-1 está “equipado com
seis instrumentos científicos” e seis não parece número imponente, mas nem tudo
é quantitativo no mundo técnico.
Antes enviavam-se animais antes de enviar astronautas
humanos, agora enviam-se robôs que não morrem — avariam simplesmente.
Diante da morte orgânica, choramos. Diante da avaria
ainda não. Mas está quase.
Em breve, as avarias modernas provocarão mais
desgostos do que as mortes, esse fenómeno antigo.
A “China pousa em Marte pela primeira vez” e o século
XXI está aí.
É um século tão bonito que de perto quase parece
imortal — e só uma grande avaria, tenho a certeza, o poderá estragar.
