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– Procuro-te para te dizer nada – ou nada
mais que aquilo que não precisa de mais que a primeira palavra que escrevi;
bastaria ela para dizer o que, talvez, seja a única coisa que se diz hoje em
dia: que existo. Nada, portanto, que não soubesses ou tivesses necessidade de te
ser dito; nada que precisasse de ser dito, nada de importante, nada com
interesse. Nada de perguntas a que tivesses de me responder, nada que fossem
sequer perguntas ou apelos que me fosse necessário equacionar para que soubesses
ou saibas o que responder ou dizer; nada mais do que essa outra coisa que não
precisava ser dita: o habitual aceno a que respondes quando e se quiseres –
como sempre eu, que é como quem diz como tu nunca. Nada, nem mesmo a saudade,
essa que é nada ter, que é nada ser, que é nada, portanto. Nada senão o óbvio,
nada senão o pateticamente inútil, nada a não ser o insolentemente impertinente.
Nada, afinal, a não ser a estupidez de dizer nada – e ainda assim dizê-la –
nada que não seja, ao cabo e ao resto, a estupidez de dizer. Nada a não ser que
sem dizer nada me parece ter dito tudo o que de mim já sabes.
– Que é nada…ou será, afinal tudo?
– Posso ter-me esquecido de ti, talvez muitas vezes me tenham vindo à memória as tuas máximas, as tuas ideias, a tua maneira de te atirares à vida – e é verdade que isso de nada ou pouco me serviu. Mas nunca te perdi de vista, mantive sempre a esperança de te reencontrar, de me reencontrar em ti. Sempre o quis, nunca deixaste de ser o meu modelo e o meu projecto. Um jovem como tu eras nunca perde a juventude, e um velho como eu começo a ser hoje nunca fugirá da velhice.