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Apontamentos para uma Biografia |
* Paulo Silveira, in 'Histórias de Vida do Poder Local'

António Augusto Leal Salvado nasceu no Fundão em 1953, filho de António Salvado da Silva, o ...


António Augusto Leal Salvado nasceu no Fundão em 1953, filho de António Salvado da Silva, o dono da escola de condução que ensinou gerações de fundanenses a conduzir, o homem que Fernando Gonçalves no seu livro “Ilustres e Desconhecidos do Concelho”, recorda assim: “ a escola de condução que havia / propriedade do Silva Salvado / também industrial no burgo / de serralharia fina em que fazia / cofres e cadeiras em ferro cromado.” Pela linha materna, é neto de José Delgado Leal, que foi Administrador do Concelho do Fundão nos princípios da Primeira República e “o único republicano conhecido no Fundão no dia 4 de outubro de 1910”, segundo nota de António Paulouro no Jornal do Fundão
Após frequentar a escola primária nas Tílias, na década de 1960 faz o ensino secundário no Externato de Santo António (“Colégio Menezes”), vai depois estudar para a Universidade de Lisboa e licencia-se em Direito na Universidade de Coimbra. Desde 1978 – depois de ter lecionado Direito, Ciência Política e Economia – exerce advocacia, (com “uma paixão assolapada”) como profissão liberal em escritório próprio na sua terra, o Fundão.
Entre 1984 e 1990 foi consultor jurídico da Associação Comercial e Industrial do Fundão, entre 1993 e 1996 foi membro do Conselho de Gerência das Águas do Alardo, então propriedade da multinacional belga ‘Spa Monopole’, tendo assumido pessoalmente a administração da empresa, para assegurar a continuidade da laboração quando o capital estrangeiro abandonou Portugal em litígio com o Estado Português, ocasião em que negociou com capital nacional (Grupo Sousa Cintra) a sobrevivência da empresa e a manutenção de todos os trabalhadores, que em 1997 lhe fizeram uma homenagem pública.
Enquanto advogado, foi consultor de várias empresas e entidades, e Delegado da Ordem dos Advogados na comarca do Fundão, em 2001-2003. Nos anos de 1990 foi candidato ao Conselho Geral da Ordem dos Advogados, na lista do célebre causídico e lutador Alfredo Gaspar. Da barra dos tribunais guarda o estilo de proverbial ironia e humor, como o que usou num julgamento muito referenciado na comunicação social regional, quando citou a discussão de Churchill com uma adversária (“Se o senhor fosse meu marido, eu servia-lhe veneno – E se a senhora fosse minha mulher, eu tomava-o!”). Em 2013 a Ordem condecorou-o com a medalha de mérito profissional e cívico.
Para além da advocacia exerceu várias atividades no Fundão: professor e membro do conselho diretivo da Escola Secundária do Fundão (1976-1978); Presidente da Direção da Adega Cooperativa do Fundão (1980-1983), cargo a que recusou recandidatar-se quando o cargo passou a ser remunerado, depois de no seu mandato a cooperativa ter conseguido o 1º prémio da Junta Nacional do Vinho. Foi sócio fundador da Rádio Cova da Beira em 1986 – outra paixão, “com a vontade de proporcionar um microfone aos que não tinham voz para falar”, tendo presidido aos seus corpos sociais – Direção e Assembleia Geral – durante os 22 anos que decorreram desde a fundação da cooperativa até 2008, ano em que renunciou e se afastou, por motivo do que entendeu ser um imperativo de ética, para ser candidato à presidência da Câmara Municipal do Fundão.
Foi Diretor do Teatro das Beiras (2004-2006), correspondente do Diário de Notícias, autor e administrador de diversos blogues, entre o quais o seu ‘Quadratim’, principal depósito dos seus textos relacionados com a cidadania ativa. Um amigo descreve-o assim: “ele parece saber de tudo, de um saber tão enciclopédico que parece adivinhar o futuro”.
Começou a sua participação política no MRPP, onde militava quando surgiu o 25 de Abril de 1974 e de onde se afastou no ano a seguir à Revolução dos Cravos, quando o Movimento se preparava para se constituir em partido político, conservando no entanto boas memórias dos combates do PREC (“processo revolucionário em curso”) onde ganhou por Arnaldo Matos uma admiração que nunca perdeu e onde partilhou os ideais revolucionários com colegas de juventude com quem manteve forte amizade, entre os quais o saudoso fundanense João Sabino, “um companheiro de inquietações, de sonhos, dos ideais melhores”.
Dizendo sempre que tem bons amigos em todos os partidos políticos, nunca teve filiação partidária, explicando que isso acontece por “incapacidade própria de um pensamento rebelde”, o que os amigos veem como resultado do seu carácter exigente e sempre inconformado com os excessos do poder. Ainda assim, foi no debate aceso que se tornou admirador de António Guterres (de quem foi, na Assembleia Municipal do Fundão, primeiro adversário e mais tarde companheiro e número dois de bancada). Também com José Sócrates mantém desde a juventude uma amizade que diz baseada na admiração e no afeto, inabalável mesmo quando em vivo desacordo; testemunha publicamente essa amizade pelo ex-primeiro ministro quando este vem a ser alvo de polémicas e ataques judiciais.
Foi membro muito ativo e interventivo na Assembleia Municipal do Fundão – vale a pena lerem-se as atas da altura – para onde foi eleito, sempre como independente, em listas do PSD e PS, nos mandatos de 1980-1983, e em 1993-1997. Nas eleições intercalares de 1987 foi em 2º lugar na lista do PSD à Câmara Municipal, liderada por Fernando Garcês. Em 2009 foi candidato à presidência da Câmara Municipal pelo PS sendo eleito vereador juntamente com o seu “estimado amigo” Vítor Cunha, ganha pelo social-democrata Manuel Frexes. Ao sair, declara “nunca digas nunca, mas não quero voltar a ser candidato autárquico”. Vivida essa experiência da única campanha eleitoral em que interveio ativamente, recorda com alguma nostalgia essa jornada em que a música do carro de som era interpretada pelo seu bom amigo de muitas jornadas Zeca Fontão, cantautor de ”Beira, Beira-Baixa, tem Fundão que é rainha” e então também candidato pela sua lista em lugar destacado.
Defensor empenhado do papel central da família na estrutura moral e no equilíbrio da sociedade, é desde 1976 casado com a pintora Isabel Maia Marques, tem com ela três filhos e quatro netos, de quem diz “agora outra das paixões é tomar conta deles”. Evoca com frequência “saudades dos tempos e amores de Coimbra” e continua pela vida fora a torcer tanto pela Académica como pelo Belenenses que o encantou quando, com seis anos, foi com o pai ver jogar na Covilhã os “azuis” do grande Matateu. Diz que herdou do pai o afinco com que se dedica ao trabalho e o entusiasmo em tudo para que o chamam e que essa energia é a herança que por sua vez sempre quis passar aos filhos, a eles que considera serem a mais prodigiosa dádiva que recebeu da Vida. A memória da súbita e prematura morte do pai, inestimável companheiro que perdeu quando tinha 33 anos, e a companhia do filho mais velho na sua profissão de sempre, levam-no a programar reformar-se em idade de ainda ter juventude para “pagar à família a dívida de tempo e companhia que se acumulou ao longo de uma vida profissional de enorme intensidade”.
Anuncia a retirada da vida ativa em 2018, mas adia-a por mais um ano. Em 2019 cumpre o projeto que jurou no ano da morte do pai: troca a advocacia pelo sonho ainda maior, o de viver no seio da família e dedicar-se a tempo inteiro à escrita e à música. Faz o “regresso às origens” da arte em que ganhou o primeiro salário quando tinha 13 anos e se tornou baterista da ‘Orquestra Gardunha’, em que foi fundador da banda ‘Psychadelic Set’, primeiro grupo musical fundanense a gravar um disco, e a partir do qual obteve a carteira profissional de baterista em 1972 e mais tarde o amor pela música popular, em que se associou ao grupo ‘Pedra d’Hera’, de quem foi produtor nos discos ‘Suor da Terra’ e ‘Ventos’, gravados na sua casa de campo, onde em 1995 a editora Valentim de Carvalho instalou um estúdio especialmente para essa gravação e aproveitou para fazer o registo de música popular e tradicional da região, que Leal Salvado e os ‘Pedra d’Hera’ então trouxeram para o estúdio.
Afirmando que o seu tempo para a política “ficou ultrapassado e caducou”, aos 66 anos diz que está “com a vida no início”, finalmente dedicado à escrita e à música, organizando a poesia e os contos que tem escrito para deixar à família, ao mesmo tempo que continua a ser aluno de música na Academia de Música do Fundão, onde se matriculou em 1999 e após o curso oficial prosseguiu em regime livre o estudo do piano. No campo da Música, tornou-se também amigo e colaborador da Associação Cultural da Beira Interior, que já no ano 2000 o agraciara com o Diploma de Mérito Cultural e em 2015, na comemoração dos 25 anos da instituição, lhe prestou homenagem com um concerto de Orquestra Sinfónica e Coros na Igreja Matriz do Fundão.
Com a música que adora, o cinema que tem por vício e a escrita que foi a maior vocação de vida se preenche o caminho do envelhecimento deste homem, que noutro tempo dizia não precisar de dormir e na idade senior continua a nunca adormecer antes de alta madrugada. Um homem culto e inteligente, pessoa nada arrogante, adepto da simplicidade, capaz de ouvir, mas também de um sorriso irónico perante a ignorância arrogante de alguns. Frequenta os restaurantes, visita livrarias, devora discos de música clássica, investe em arte e viaja regularmente. A fluência e espontaneidade são-lhe familiares, a sua eloquência é como o vinho do Porto, uma conversa que se pode prolongar por dias inteiros.
Muito fica por dizer, certamente. Enquanto esperamos pelo livro de memórias que já prometeu, saudamo-lo com o tratamento carinhoso dos seus próximos: um abraço, amigo Tonô.
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