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José Sócrates já foi julgado politicamente pelo povo português, que em 2009 lhe deu uma maioria relativa, depois de em 2005 lhe ter conferido uma maioria absoluta. E em 2011 arredou-o do poder. Em seguida, Sócrates demitiu-se da liderança do Partido Socialista e não voltou a candidatar-se a nenhum cargo político ou partidário. Devia ser um caso encerrado (…)
José Sócrates já foi julgado politicamente pelo povo português, que em 2009 lhe deu uma maioria relativa, depois de em 2005 lhe ter conferido uma maioria absoluta. E em 2011 arredou-o do poder. Em seguida, Sócrates demitiu-se da liderança do Partido Socialista e não voltou a candidatar-se a nenhum cargo político ou partidário. Devia ser um caso encerrado (…)
A justiça está a julgar José Sócrates. Mas este também vai ser o maior julgamento de sempre a que a justiça vai ser sujeita
Jorge de Burgos, o monge cego retratado por Umberto Eco em “O Nome da Rosa”, guardava ciosamente os livros proibidos que só ele conhecia de todos os olhares. O superjuiz é o nosso Jorge de Burgos. No caso Sócrates, o William of Baskerville que há em nós já concluiu que ele só está preso por causa das convicções do superjuiz. (...)
Entretanto, convém lembrar que Jorge de Burgos morreu no incêndio que devastou totalmente a biblioteca que ciosamente guardava.
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Entretanto, convém lembrar que Jorge de Burgos morreu no incêndio que devastou totalmente a biblioteca que ciosamente guardava.
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SÓCRATES E JORGE DE BURGOS
José Sócrates já foi julgado politicamente pelo povo português, que em 2009 lhe deu uma maioria relativa, depois de em 2005 lhe ter conferido uma maioria absoluta. E em 2011 arredou-o do poder. Em seguida, Sócrates demitiu-se da liderança do Partido Socialista e não voltou a candidatar-se a nenhum cargo político ou partidário. Devia ser um caso encerrado, mas Sócrates tocou em demasiados interesses, tomou decisões demasiado polémicas, promoveu amigos demasiado controversos e foi um líder tão abrasivo que o seu nome nunca deixou de estar presente na luta política. Além disso, foi obrigado a fazer o pedido de ajuda internacional e isso é um argumento que os seus inimigos lembram todos os dias para erodir o PS.
A justiça está a julgar José Sócrates. Mas este também vai ser o maior julgamento de sempre a que a justiça vai ser sujeita
E assim como o centro-direita não aceita que a morte de Sá Carneiro tenha decorrido de um acidente de aviação, também está plenamente convencido que Sócrates é corrupto e por isso há muito o queria ver atrás das grades. O que conta, contudo, é que a justiça está a julgar José Sócrates. Mas este também vai ser o maior julgamento de sempre a que a justiça vai ser sujeita. É que este caso nos reconduz ao velho dilema clássico: quem julga os nossos juízes? Quem os pune quando erram? E ninguém se espanta que até agora só exista um superjuiz que intervém em todos os casos mediaticamente mais relevantes? Ninguém se espanta que isso possa levar a enviesamentos nos julgamentos, já que todos os casos têm conotações políticas? Ninguém se espanta que no caso ‘Portucale’ todos os acusados tenham sido absolvidos? Ninguém se espanta que o caso dos submarinos volte à tona sempre que Paulo Portas se expõe mais do ponto de vista político? Ninguém se espanta que neste caso haja corruptores já condenados na Alemanha mas não se encontrem os corrompidos em Portugal? Ninguém se espanta que no BPN o caso se arraste há mais de quatro anos, havendo até agora apenas um detido e em casa, Oliveira Costa? Ninguém se espanta que Ricardo Salgado esteja em liberdade, tendo em conta que estamos perante o mais brutal colapso de um banco e de um grupo desde sempre em Portugal? Ninguém se espanta que só três meses depois do caso BES, o superjuiz Carlos Alexandre entre com uma farta brigada de polícias pelo escritório de Ricardo Salgado e pelos de outros administradores para apreender documentos? Neste caso o superjuiz não temeu que os responsáveis tivessem utilizado estes 90 dias para destruir os documentos que os poderiam incriminar?
Jorge de Burgos, o monge cego retratado por Umberto Eco em “O Nome da Rosa”, guardava ciosamente os livros proibidos que só ele conhecia de todos os olhares. O superjuiz é o nosso Jorge de Burgos. No caso Sócrates, o William of Baskerville que há em nós já concluiu que ele só está preso por causa das convicções do superjuiz. O risco de fuga para um ex-primeiro-ministro é nulo. Esperemos que, no final do processo, seja com base em provas ou na falta delas que Sócrates seja condenado ou ilibado. Mas que o processo seja célere — porque uma eventual absolvição daqui a vários anos significa uma condenação na prática. Entretanto, convém lembrar que Jorge de Burgos morreu no incêndio que devastou totalmente a biblioteca que ciosamente guardava. Para que conste.