quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

7.Dez.2014

Insuportável mentiroso
. . . . (citação integral)
. . . . Uma luminosa análise de Fernando Paulouro Neves
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Há duas coisas que minam irreparavelmente a respeitabilidade dos políticos: a hipocrisia e a estupidez. Há tipos que desbaratam o respeito público por um falar repleto de hipocrisia e cinismo, que neles é tão natural que parece intrínseco às personalidades falsificadas que construíram na aprendizagem política; outros, desajustam-se de tal forma da realidade, que o povo diz que têm demasiada estupidez natural, pois nunca percebem verdadeiramente a substância das coisas. Esses públicos vícios, em alguns casos, confluem na mesma pessoa, como acontece com o primeiro-ministro Passos Coelho. No exercitar das suas falas, a hipocrisia e a estupidez natural convergem numa delirante ou propositada falsificação da realidade social, que no Portugal que somos é dramática e cheia de desumanidades.
Vi, por estes dias, nas televisões, Passos Coelho, numa reunião do seu partido, muito sorridente, falar da sociedade portuguesa, apregoando com uma chocante naturalidade (cá está o tal sintoma de desrespeito pelas pessoas) que a crise, em Portugal, até tinha diminuído as desigualdades, e recorrendo a uma metáfora marinha, teve a lata de dizer não ter sido o mexilhão que se lixou... Riu ele e outros alarves, que aplaudiram a tirada irónica do primeiro-ministro.
Não pode haver pior coisa num político que julgar os seus concidadãos estúpidos, ou, pelo menos, idiotas úteis. É que eles sabem no concreto -- pois sofreram na pele -- a devastação social que ocorreu em Portugal nestes três anos meio, com o governo de Passos & Portas (o Senhor Feliz e o Senhor Contente), executores das políticas de empobrecimento que foram alegremente além da Troika, de que eles foram a um tempo servis e exultantes executores.

Como é capaz um primeiro-ministro. a não ser que seja irresponsável ou inimputável, bolçar tais alarvidades, quando, ainda esta semana, a OCDE, no relatório de avaliação sobre o nosso país, veio dizer que "Portugal tem uma distribuição de riqueza das mais desiguais da Europa e os níveis de pobreza são elevados" referindo, precisamente, que "a actual crise económico-financeira veio interromper uma fase de declínio gradual tanto da pobreza, como das desigualdades"? Como é capaz um primeiro-ministro, a não ser por manifesta má-fé, dizer uma mentira tão grosseira, quando, a OCDE vem avisar que as crianças são das principais vítimas da recessão? Como pode um primeiro-ministro, a não ser por um desejo incontrolável de mistificação política, afirmar que as desigualdades se atenuaram com a crise, quando, ainda recentemente, o INE veio informar que há "quase dois milhões de pessoas em risco de pobreza, o nível mais elevado desde 2005"?
Passos Coelho pode fingir que o seu Portugal -- dele e dos seus apaniguados -- é esse paraíso, onde, com o seu governo, tudo caminha para o bem e para a felicidade. Mas a maioria dos portugueses, que come o pão que o diabo ou Passos & Portas amassaram, que olha para o lado e vê a pobreza alastrar como uma nódoa, que tem na família gente desempregada e sem horizontes de futuro, que vê os mais jovens partir sem bilhete de regresso, sabe a enorme aldrabice que a visão idílica do primeiro-ministro representa. Sabem e não esquecem. Só o primeiro-ministro não sabe, ou não quer saber, o aumento dos suicídios em Portugal, de jovens e idosos, o mais dramático retrato de como a crise tem devastado um país chamado Portugal.
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in Notícias do Bloqueio,