Os portugueses vão andando – ou vão deixando andar. A “choldra” de Eça parece ter levado um século a putrefazer por completo o País, mas agora estamos muito além dela. Na presidência da República, um paspalho que é em si mesmo um insulto à Pátria, por sobre mil e uma provas de ter menos consciência ética que uma anémona. No Governo, um gang de larápios sem escrúpulos nem vergonha nem a mínima ideia do que é o Estado, por cima da bandalheira que em cada dia mostram ser a das suas vidas.
E o Povo quieto e calado.
O Povo é roubado, paga e cala. É maltratado, queixa-se para si mesmo e baixinho e cala. É ultrajado, vilipendiado, gozado e esmagado no chão a que aceitou ser lançado – e parece apenas saber subir quando lhe apontam o cadafalso. E sobe-o obedecendo. Sobe-o como lhe mandam: quieto e calado.
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Leio a crónica de Almudena Grandes, no "El Pais" em que ela se queixa que as coisas vão tão mal que cada dia é mais difícil vermos a nossa imagem reflectida no espelho. "cada dia custa mais tomar o pequeno almoço com os escândalos das oito da manhã", diz a cronista.
Aqui e agora, também temos uma imensa pena de nós próprios pelo que vai acontecendo ao país. E, infelizmente para nós, os escândalos não surgem apenas nos noticiários apressados do começo da manhã, mas prolongam-se pelas vinte e quatro horas do dia, e, às vezes, penso mesmo que eram precisas mais horas para fazer o inventário das desgraças do dia. Persistentemente as notícias de escândalos financeiros, de corrupções à roda do poder, de espertezas saloias antigas de políticos, a começar pelo chefe do governo, de tudo aquilo em que chafurda a incompetência de ministros, como no caso da colocação de professoras ou do caos na Justiça em que o país fica de pantanas. Nem Passos diz uma palavra sobre isto, nem o Presidente Cavaco, agora tão preocupado com o regime e a qualidade da democracia, dá um ai ou tem chelique. Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato passam sorridentes por entre os destroços do país que eles produziram irresponsavel-mente.
Vejam o imbróglio que Crato, o sábio do "eduquês", a sumidade que tudo resolvia, arranjou no início do ano lectivo! Professores colocados e deslocados, e, logo, desempregados, com a vida às costas, de escola em escola, escolas de portas fechadas, milhares de alunos sem aulas.
Em qualquer país civilizado, que aferisse os ministros e os governos pela sua responsabilidade política, estes ministros (e talvez também o seu chefe) já tinham levado um chuto no cu, no meio da execração pública que a sua incompetência tem produzido. Mas tudo se passa no Portugal manso da pesada canga sobre o povo, no Portugal da anemia cívica amplificada ao absurdo, no Portugal da indiferença face à vida colectiva. A fatalidade do ser português é este aceitar da desgraça assobiando para o lado, este fatalismo como se os deuses tivessem manipulado um destino em que a canalhice triunfa. O Crato e a Teixeira da Cruz continuarão tranquilamente a rir-se de nós. O veneno corre nos noticiários de todas as horas. Até que um dia...
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Fernando Paulouro Neves, Notícias do Bloqueio
(http://fernandopaulouro.com)
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