À chegada, a gente preparou-se para o desastre. Quem ouviu as alocuções de boas-vindas pode ter-se arrepiado com as inapropriadas condições acústicas do pavilhão e a inconseguida sonoplastia (talvez impossível naquele espaço) trouxe-nos aquela realidade amarga que é a inexistência de uma sala em que possa fazer-se e ouvir-se música na nossa cidade. Mas a Música é mesmo a linguagem dos deuses – sobretudo quando vem de instrumentos que parecem ungidos de toque divino. E a voz humana é mesmo o mais sublime dos instrumentos.
O Festival Internacional de Coros, que o prestígio de Luis Cipriano e do seu Coro Misto conseguiu trazer desta vez a Portugal, abriu em grande. O anfitrião Coro Misto da Associação Cultural da Beira Interior fez as honras da casa com um programa (Rock Choir) tão original quanto atraente – e que honra conferiu ao espetáculo!
O público, umas centenas de pessoas que na sua maioria vieram de fora mostrar-nos que a Cultura vale todas as penas, relegou o frio da noite e fez a sua parte: recebeu de braços abertos a dádiva e fez a festa. E hoje há mais. A não perder.
Ao ritmo do rock consagrado entre os anos de 1960 e a atualidade, o Coro Misto “agarrou” de emoção o público desde a primeira peça. Arrancou com o mais vibrante de Coldplay (‘Viva la Vida’), concedeu um “repouso” rítmico lembrando John Lennon (‘Imagine’) e levou o entusiasmo de público de mão dada até ao ponto mais alto do concerto, aquele em que a orquestra se lhe juntou, para momentos mágicos como o de uma arrojada interpretação de ‘Bohemian Rapsody’ ou o do fabuloso medley dos Abba, por uma via de geniais arranjos que guardaram o supra-sumo da polifonia para a “sobremesa”, uma emocionante evocação de ‘We Are the World’.
