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Uma escritora de sucesso

Uma escritora de sucesso

[Texto de Teresa Sá Couto, in http://comunidade.sol.pt/blogs/leituras]

«Couves & Alforrecas – Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto», de João Pedro George, é o livro do momento. Pronto para entrar nas livrarias, o livro com um close readingà obra da autora popular, tem protagonizado uma inaudita polémica que envolve a liberdade de expressão - recorde-se que Margarida Rebelo Pinto e a sua editora, a “Oficina do Livro”, interpuseram, na semana passada, uma providência cautelar para impedir que ele chegasse ao público.
A novíssima editora “Objecto Cardíaco” de valter hugo mãe, que tem a chancela do título "maldito", acaba de fazer jus ao seu nome: uns esperam, com júbilo incontido, que o livro chegue às livrarias; outros, incontidos, desesperam, pelo mesmo motivo. Quanto a nós, preferimos crer que tudo não passa de um grande equívoco, pois de outra forma o caso afigurar-se-ia demasiado sinistro.
O texto da discórdia foi publicado no "blog" Esplanar, de João Pedro George (esplanar.blogspot.com) a 4 de Outubro do ano passado, sendo agora retirado para que fosse publicado no presente livro. A polémica estalou logo a 6 de Outubro, quando o jornal 24 Horas fez dele manchete altaneira. Em posfácio, o autor dá conta dessa quinta-feira de vertigens: «“Escritora da moda copia os próprios livros/ Professor universitário descobre dezenas de frases iguais nas várias obras de Margarida Rebelo Pinto / João George detectou erros ortográficos, muito copianço e uma série de ideias repetidas nos oito livros da autora / Professor diz que ela é um caso mental”. Assustei-me, tive um medo pânico, senti o sangue a circular mais depressa.Tentei encarar a coisa filosoficamente: “Foda-se!”».
Ousara "atirar-se à estrela" e os ecos atingiam toda a comunicação social:a revista Visão, a sátira no Inimigo Público com «Grande Entrevista a MRP: "O meu Próximo livro vai chamar-se I´m in Love with the copy paste"», a Contra-Informação, «pondo a escritora a dizer várias vezes a mesma frase»...
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Análise cirúrgica da escritora da moda
João Pedro George, docente de Sociologia da Cultura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e crítico literário, faz uma leitura apurada de cinco romances da autora – Sei Lá, Não Há Coincidências, Alma de Pássaro; I’m in Love with a Pop Star, Pessoas Como Nós – e «três colectâneas de crónicas e minificções publicadas em jornais e revistas» – As crónicas da Margarida, Artista de Circo e Nazarenas & Matrioskas –, todos «lidos, relidos, minuciosamente sublinhados, rabiscados e anotados nas margens». Um trabalho árduo que, diz o autor, «foi um flagelo de proporções bíblicas». Pela prova de resistência, segue a nossa admiração. Fala dos temas tratados, dos espaços, das personagens, da estrutura narrativa, dos recursos estilísticos, da linguagem. Os temas tratados são «invariavelmente, o desencontro dos sexos», «casos sentimentais mal resolvidos» e suas sequências previsíveis.
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As personagens são, «quase sempre, “extraordinariamente inteligentes”; as mulheres são sempre «trintonas e solteiras», há-as «comedoras de homens» ou «à procura de um marido rico». Eles, «regra geral, são “perdidos de giros”, umas “brasas que comem gajas umas atrás das outras”».
Os locais de fetiche são identificáveis: «Bairro Alto, Príncipe Real, Papa Açorda, Lux…».
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A metáfora do mergulho parece ser recorrente na escrita da autora. Pedro George regista inúmeros exemplos: «o momento em que vou mergulhar outra vez nos olhos dele e esquecer-me de que o resto do mundo existe»; «mergulha o olhar na minha boca»; «mergulhamos pelos olhos», etc. Igualmente recorrentes são os verbos aterrar e vomitar: «bebo dois copos antes do bife aterrar na mesa»;«a sobremesa aterrava na mesa»;«o vinho aterra na mesa»; «o prato (…) que aterrou debaixo do nariz»; «quase a vomitar com o cheiro do corpo dele»; «até me dá vontade de vomitar»; «aquilo era pior do que vomitado de cão», etc.,etc.
Parece ter sido dos «efeitos surrealistas» de algumas frases da escritora que o autor retirou o título prazenteiro desta sua recensão crítica. Compilam-se expressões como «impotente como um peixe», «cara inchada que parece um bolo», «duas loiras bem cheias com cara de couve», «cara de ovo cozido», depois a classe da bicharada: «fazia cara de pescada enjoada», «a minha sogra é uma alforreca», «cara de rato», «cara de cavalo», «cara de coelho», etc, privilegiando um leque bem composto de animais.
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O autor identifica as celebérrimas repetições, confirmando o “auto-plágio”, de frases e parágrafos, num mesmo livro, como de páginas inteiras em diferentes livros. Concluiu-se que a autora mais vendida «vende e revende a mesma escrita».
Escolham-se alguns exemplos: As crónicas da Margarida, página 143: «E, como diz António Lobo Antunes, quando um coração se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta». Em Não Há Coincidências; página 242: «O António Lobo Antunes diz que o coração quando se fecha faz muito mais barulho do que uma porta». Em Artista de Circo, página 147: «Quando um coração se fecha faz muito mais barulho do que uma porta, diz o António Lobo Antunes». Em Não Há Coincidências, página 22: «Saio de casa ainda é noite cerrada. O portão abre-se silenciosamente, cúmplice nas minhas saídas madrugadoras e regressos tardios»; página 132, do mesmo livro: «Saio de casa ainda é noite cerrada. O portão abre-se silenciosamente, cúmplice nas minhas saídas madrugadoras e regressos tardios».
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João Pedro George afirmou recentemente à agência Lusa: "A Margarida Rebelo Pinto queixou-se várias vezes na imprensa de que a crítica a ignorava sistematicamente, o que não se entendia sendo ela a autora que mais vendia em Portugal, pelo que decidi ler e analisar toda a obra dela". Neste livro, em jeito de conclusão e balanço deste seu trabalho, acrescenta: «Pela minha parte, desisto. Desisto de Margarida Rebelo Pinto. Mas dou-lhe um conselho: dê-se por muito feliz pela indiferença com que a crítica até hoje a tem tratado».
Aguardamos o desenrolar destas «coisas de ignição» da Objecto Cardíaco que já provoca estrepitosas síncopes. Bem Haja!