quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
Vêm os anos, passam as décadas, abre-se a vida

Tempo

Prazo da vida vertigem da morte
Marcha intocável que a tudo entorpece
Vórtice em que a matéria se esvanece
Paradoxo de o destino ser sorte

Se és de amar mal chegando já te vais
Passas no momento paras na hora
Fazes-te instante espera e demora
E na saudade és sempre o nunca mais

Pressa do fim no vagar do começo
Tarde és avanço e cedo regresso
Ao nada em que culminas por sucesso

Pudesse a tua fúria ensandecer
Esta lúcida impotência de me ver
A ter-te horror só por já te não ter


Hoje a minha vida faz mais um ano e completa mais uma década.
Como em todos os dez anos, dediquei o dia à síntese do meu mundo recente - e à reflexão da decisão de fundo para o futuro do tempo que hoje começa. Pausei o trabalho e fechei uma conversa cuidadosamente preparada nos dias, semanas e meses que a trouxeram até aqui. Usei o método como sempre - e as conclusões chegaram-me mais claras que nunca.
Cada um é para o que nasce e eu nasci (ou criaram-me) para ser cidadão - simples, atento e grato ao esplendor de viver com os outros. Das maravilhosas (e quantas vezes desmedidas) paixões de que a minha vida é feita, a maior foi a da felicidade da minha comunidade. Com uma companheira que nunca mereci, filhos que me superaram a Vida para além do imaginável, amigos de que aprendi como o género humano é imenso e imensamente belo, uma profissão exaltantemente intensa e intensamente exaltante - com todo esse imenso "património" moral que me caíu do céu, a minha vida foi até hoje dedicada principalmente à minha terra, à minha região, ao meu país.
Fiz pela minha gente um milésimo do que queria ter feito - e, ainda assim, sei que lhe dei mil vezes o que me parecia ser capaz de lhe dar. Fiquei muito aquém do que o bem da minha terra exigia de mim, apesar de ter ido muito além do que tive forças para lhe dedicar. A minha terra, a comunidade que me deu tudo o que sou, a colectividade de que faz parte inteira a parte tão pequena que nela sou, foram o amor maior, a causa mais mobilizadora, a razão mais forte. Pensar a minha vida em função dela é, como sempre foi, o mínimo cumprimento de uma obrigação máxima. Até porque não sei fazê-lo de outro modo. Termina por não ser razoável nem normal gastar tanto tempo a olhar para mim próprio como o fazem estes três parágrafos.
A minha terra e a sorte dos meus concidadãos estiveram entregues nas mãos de gente estranha, nesta última dúzia de anos e na dúzia de anos que a antecedeu. Gente que as tratou mal - por culpa própria, um pouco, e muito por culpa nossa.
Primeiro foram uns, que foram honestos mas inactivos. Depois vieram outros, muito activos mas profundamente corruptos.
Os primeiros foram leais, ouvintes e afáveis - mas, por omissão, não souberam servir. Os últimos foram ambiciosos, convictos e determinados - mas, por abuso, serviram-se até ao intoleravelmente criminoso.
Os primeiros deixaram a minha terra no limbo da estagnação. Os últimos lançaram-na no inferno da aberração.

A minha terra está moribunda - porque a alma da sua gente está muito doente.
Embotaram-na os predadores do meu País, da Civilização, do Homem.
A luta, agora, concentra-se aí - mais acima da minha terra, mais longe do que a minha gente vê.
Agora, que fiz 60 anos, tenho direito à Felicidade,
o mesmo direito que sempre tive, o mesmo que todos têm.
Mas o dever de caminhar pela Felicidade é agora maior.
É tempo de lutar com mais força esta luta que precisa de todos.