António,
Ontem quando te dei os parabéns, disseste-me que a essência da nossa diferença são os 20 anos que nos separam. Falaste do teu pragmatismo e disso entendi, talvez mal, que te sentes cansado, que o teu sonho por vezes tropeça na realidade e que, por isso, te vais abaixo. Talvez também te tenhas querido referir à minha forma crua e agreste de viver o sonho. De lutar a luta. Concedo nos meus exageros, não os renego porque fazem parte do meu caminho. Pensado a quente, mal pensado, irreflectido. E talvez mal caminhado. Mas quando, como combinámos ontem eu fizer os meus 60, tu falarás de mim.
Hoje não é o dia.
Hoje és TU. Não porque fazes 60 anos. Mas pelo teu passado e pelo teu presente. Se olhares à tua volta, e olhares fundo as vidas que aqui te homenageiam, verás a diferença que foste – e que és – em cada um destes percursos. Tocaste de forma indelével cada uma das pessoas que hoje aqui te comemoram.
Há pessoas que nos marcam o antes e o depois. De as conhecermos. Tu és uma delas. Há em mim um antes de te conhecer e um depois de te conhecer. Com a tua modéstia agora me interromperias para me lembrar que tudo o que nos mexe nos move. Desde os teus heroicos atrasos (a minha ideia é que chegas sempre adiantado ao dia seguinte) até à borboleta que segundo o efeito-tese bate as asas ali e causa um tremor aqui.
António, és um Homem Bom. Bom ao ponto de a democracia que merecemos te ter negado o que a nossa terra merecia ter tido porque ousaste dizer não a quem te pedia favores por baixo da mesa. Tu fizeste política, és um animal que a faz desde o acordar até ao dormir. E imagino que a sonhar ainda vás mais longe. Não há que confundir o arremedo injurioso que aceitamos como praxis de feitorizar a coisa pública com base em tráfico de influências (delicadamente apelidados de tachos e aceites com um sorriso de “tem de ser, é assim, é a vida”) com aquilo que tu és.
Não me alongo mais, António. Sei o que o que é notório. E que imagino que a tua modéstia não te permitirá reconhecer. Mas reconheço eu e reconhecem, estou certo, todos quanto aqui estão hoje. Marcaste a ferro querido cada um destes percursos de vida que hoje te olham com respeito. Desde os teus primeiros, que com a tua Isabel ajudaste a dar à luz, e para quem és luz − o que inclui filhos e netos.
Até àqueles a quem, qual rei midas benigno, tocaste e iluminaste. Estes todos que aqui estão e quem, sem querer ousar, tocaste a essência e apontaste o caminho.
E não te dou os parabéns. Já tos dei ontem. De parabéns estamos nós todos por te termos nas nossas vidas.
Só um aparte, esta não é a minha forma de dar nas vistas. É apenas minha forma de falar.
Bem-haja, António
* Rogério da Costa Pereira
Quando o teu filho Pedro me telefonou, convidando-me para a festa de aniversário dos teus 60 anos, senti uma honra especial. Não porque iria à tua festa de anos. Isso pouco importa. Mais ano, menos ano, cá vamos todos (des)andando. Senti uma honra enorme, porque o Pedro me disse que estava a convidar as pessoas que mais te marcaram ao longo destes 60 anos. Sei que não mereço tal honra, porque sei que o marcador foste tu.
Desde a juventude que me marcaste. Começando pelos ‘Psychadelic Set’, passando pelo MRPP e pela venda do ‘Luta Popular’, em dias de mercado, em frente às casas de banho públicas do Fundão, quando gritávamos, sem medo: ”Olhó Luta Popular a um escudo cada exemplar!” e “É o jornal do MRPP, só não compra quem não lê!” Quase sempre acompanhados com as brincadeiras do meu primo Jorge, que também gostava muito de ti e que também teria 60 anos, feitos no passado mês de Dezembro, não fôra a terrível doença tê-lo levado tão cedo.
Depois emigrei e quando, passados uma dúzia de anos, regressei, retomámos o contacto. E fizemos muitas coisas juntos. Desde um programa de rádio, passando pela organização de alguns concertos ao ar livre e, claro, lutas políticas, nas quais tu sempre participaste e participas, desprovido de quaisquer interesses pessoais e sempre a pensar nos outros e na defesa dos mais fracos. Algumas vezes contra a maré e muitas com sacrifício, teu e da tua família.
E começaste a chamar-me companheiro, palavra de que eu sempre gostei. E eu chamo-te companheiro, porque sei que o és. E amigo, porque sempre o foste. E sei que serás.
À hora em que estou a escrever estas palavras, tua ainda não sabes, mas eu sei que, lá mais para o fim da tarde, te vou dar, pessoalmente, um abraço de parabéns, desejando-te que faças muitos anos. E repito o que te disse o ano passado: que faças muitos mais do que eu, porque, enquanto eu cá andar, preciso de ti.
Um forte abraço, Companheiro.
* António Filipe