quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

O legado confiscado

Ali conhecemos o Citizen Kane, A Filha de Ryan, Ivan o Terrível e o Couraçado Potenkine;
Por lá fomos até ao Rio Bravo, a Batalha das Ardenas, a Ponte sobre o Rio Kwai; e 
foi lá que se nos apresentaram Clark Gable e Brigitte Bardot, Sean Connery e Ava Gardner,
Giulietta Massino e Bruce Lee, Ingrid Bergman e Tom Hanks, Charlie Chaplin e Meryl Streep.
E recebemos o TEUC e Laura Alves e Manuel Lereno e Raul Solnado - e as récitas dos
finalistas do Externato e as vozes da rádio e da TV e os cantautores de Abril; e dali
se incomodou Salazar com a esperança de outras cores em eleições ou coisa parecida.
Depois, vieram 20 anos de dúvidas, alvitres e medos diante do silêncio. E depois
chegaram os que nunca lá entraram - mas traziam escuras ideias de outro lucro. 
Com juros sobre a memória dos fundanenses e dividendos fáceis para promessas. 
Promessas com prazo de cumprimento a perder de vista. Com custos de
meia dúzia de tapumes, que a seu tempo virão e até ao dia do nunca. E só.

Hoje sobra a nostalgia de uma parcela significante e bela da nossa vida
que tínhamos o dever de transmitir aos vindouros
mas vimos perder-se desnecessariamente. Ignobilmente, talvez.

António Solipa Pereira, com a denodada colaboração de sua família – levada até ao sacrifício – usou o seu sucesso de vida para doar à sua comunidade o sonho que generosamente decidiu partilhar. Meio século depois, a comunidade donatária não foi capaz de lhe ser grata – e a passividade dela abriu portas a que uns figurões fizessem do cine-teatro um conveniente slogan para a propaganda a que se reduz o manhoso estilo de 'governar' por meio de primeiras páginas e caixas altas na imprensa, a benefício da sua estulta pretensão a marqueses de pombal dos tempos pós-modernos. A família de António Solipa foi alvo de expropriação e o sonho da população sujeito a confisco. E tudo em cima da falsa e artimanhosa invocação do “interesse público”…




Em 1950 António Solipa Pereira era, porventura, um homem rico e feliz. Uma vida de sucesso (na emigração, salvo erro) proporcionava-lhe ‘pegar’ num sonho e concretizá-lo. Construíu um cine-teatro, digno e grandioso. E alterou o imaginário de três gerações – uma que viu realizada uma obra que por fascínio queria mas não conseguiria, outra que viu moldadas as suas conceções de cultura por uma influência marcante recebida dentro das quatro paredes de uma sala em que fez boa parte do seu crescimento, e uma outra que está a confrontar a aprendizagem da consciência de si própria com a quotidiana visão concreta e clara de um monumento-documento símbolo de vida e transfigurado em morte prolongada e violenta.
A geração “do meio” das três que com ele conviveram – aquela que percorreu infância, juventude e maturidade a par das do próprio Cine Gardunha – ficou com a sua própria vida individual misturada com a do cine-teatro. Matam-lhe por isso uma parte, uma parte boa, da sua própria vida, à medida que abatem a do edifício cinquentenário. As mil memórias de quem se fez homem a olhar aquele ecran gigante vão sendo magoadas, destruídas, roubadas à mistura com o cimento e o estuque daquela casa. Esfumam-se com a poeira dos escombros – e perdem a forma física que as manteve vivas e agora as sentencia.