quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Pedro à paulada e Paulo à pedrada

Citação (extratos) de “O 15 de Setembro”
Artur Portela, in Jornal do Fundão online, 19.Set.2012

O mar de manifestantes em Lisboa, o talvez outro mar de somados manifestantes em tantas outras cidades de Portugal, fazem um oceano de indignações.
Há, nisto, nestas manifestações, uma quantidade e há também, claro, uma qualidade. Uma representatividade. Uma singularidade. Uma espontaneidade que potencia a representatividade.
Há nisto, já, o lado de lá do limite. Avista-se já, nisto, o lado de lá do limite.
Temos de estar muito zangados para estarmos zangados assim.
Os números, que, no caso, foram esmagadores, tendem já a ser, no debate, um álibi por parte daqueles contra os quais estas foram feitas.
Portanto, se foi meio milhão, terá sido, para os habilidosos, apenas meio milhão. Se foi um milhão, terá sido, para os autocolantes partidários, apenas um milhão.
(…)
Lembrem-se do 15 de Setembro!
E de que o ano tem trezentos e sessenta e cinco 15s de Setembro!
Portas
Paulo vem solene e vem fungando. Chegou por uma porta à qual chegou por outra e por outra. Olha em redor e conta sete portas. Uma dá para onde ele talvez queira. Outra, para onde se verá. Outra, para outra que dá para outra que dá para outra. Outra que parece que está fechada mas está entreaberta. Outra, entre fechada e encostada. Com três voltas, se fechada. Com quatro, se aberta. Embora reste saber para que lado abrem as portas, se para fora, se para dentro. Não são sete portas, são setenta portas. Setenta espelhos. Todos ele. Todos giratórios. Paulo ali está; o labirinto é a sua natureza. Pedro, esse, está triste. Está triste porque já sabia. E, sabendo, tinha perdido a chave. Pior, tinha-a deixado ao alcance de Paulo.
(...)