[Joaquim Monteiro, cidadão contribuinte ]
Caro sr. António Salvado,
Permita-me desde já que lhe agradeça a cortesia de me colocar um sorriso para o início da hora de almoço - uma indulgência que (por enquanto) tende a resistir à sede castradora dos senhores membros do governo (a minúscula é intencional).
Do sarcasmo implícito, retiro a imagem de alguém que recorre a esta figura como forma de se conseguir distanciar de uma realidade que, porque não ignora, procura que não o revolte para lá do razoável. Se a minha aserção estiver correcta, sofro do mesmo.
Mas da sua prosa, destaco um aspecto que me parece bastante importante e, quiçá, revelador de um alargar de horizontes no sentido da desmistificação de um certo conceito e prática de "solidariedade social" que se encontra enraízada e que - ao contrário do cavalo - tem engordado, enquanto ninguém a vê: as IPSS - Instituições Particulares de Solidariedade Social.
Estas instituições são hoje um sorvedouro de recursos do Estado e, à sua escala e especificidade, um poiso para muitos Boys e Girls da área académica do Social ou com currículos a martelo que parecem indiciar que sabem algo do assunto... e quando brincamos ao faz-de-conta que nos preocupamos com os pobrezinhos e coitadinhos, é uma grande chatice... mas apenas para quem paga o pato.
Quem sabe se mais alguém reparou nesta mosca que está na parede e que um dia se perceberá finalmente que se trata de um elefante, que todos procuramos ignorar?...
No fundo, também na solidariedadezinha interesseira existem muitos pinantes...
Caro Senhor Joaquim Monteiro:
Parece-me bem verdade que padecemos do mesmo 'mal'. Pela minha parte, é um mal menor, este de tentar ver algo de realidade na ironia de vida que nos servem. Digamos que é uma questão de sobrevivência: aprendi com as crianças que quando não podemos limpar o lodo que nos cerca por todos os lados, resta-nos bater os pés e divertirmo-nos com a figura dos que nadam nele...
É verdade que esta 'brincadeira' tem os seus quês: o lodo não desaparece, os mergulhadores do imenso pântano especializam-se cada vez mais a viver e pescar nele, o nosso bater de pés precisa de forças que nem sempre perduram, o nosso sorriso é muitas vezes (demasiadas vezes) contrastado com a porcaria que atinge outros, que não sabem ou não querem nadar no lodo mas levam com ele em cima - e até com a tentação de muitos em aprenderem a mover-se no lodo para não serem afogados por ele.
O caso das IPSS é, no meio disto, um caso muito sério. Onde há do melhor e do pior. Onde se luta pela oportunidade e onde se lucra com o oportunismo. Onde é tão injusto contribuirmos para o esmorecimento de quem luta por oportunidades para outrém como consentirmos quem lucra com o oportunismo próprio. Mais que moscas e elefantes, vejo nessa "parede" umas quantas formigas laboriosas e uma multidão de varejeiras parasitas.
O grande problema tem sido encontrar um desinfectante que extermine as varejeiras sem envenenar as formigas. Entretanto, é bem certo que a proliferação da trampa vai engordando as varejeiras e sufocando as formigas...