
Hoje é dia da diva dos pés-descalços, rainha
das mornas, Grammy da World Music, Dame da Légion d’Honneur. Cise deixou de ser
vista entre os seus amigos.
Vi-a, atuando ao vivo, apenas uma vez – numa
daquelas noites em que na Expo de Lisboa a Praça Sony acolhia uma celebridade
convidando uma outra, com Marisa Monte. Fico a lembrá-la quase como o mundo
inteiro a guarda pela suas mornas. Afinal, é essa Cesária que não morreu,
porque continuará a ouvir-se, com o mesmo deleite com que encantou meio século
de contemporâneos, quando a memória de nós próprios se tiver já perdido no
tempo.
A notícia da sua esperada morte fez-me
lembrar o dia em que morreu Pavarotti. Eu estava com o António Filipe a
preparar a emissão do “Pretérito mais-que-Perfeito” e prestámos ao maior dos
tenores a mesma homenagem que hoje sei dedicar a Cise: ouvindo e dando a ouvir
um pouco daquilo que faz da música um eterno presente contínuo.
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Wikipedia
Cesária Évora (1941 -
2011) nasceu na cidade de Mindelo, em Cabo Verde. Tinha mais quatro irmãos. O
seu pai Justino da Cruz tocava cavaquinho, violão e violino. Quando jovem foi viver com sua
avó, que havia sido educada por freiras, e assim acabou passando por uma
experiência que a ensinou a desprezar a moralidade excessivamente severa.
Entre os seus amigos
estava B. Leza, o compositor favorito dos cabo-verdianos, que faleceu
quando ela tinha apenas sete anos de idade. Desde cedo, Cise, como era conhecida pelos amigos, começou a cantar e a fazer actuações aos
domingos na praça principal da sua cidade, acompanhada pelo seu irmão Lela, no saxofone. Mas a sua vida está intrinsecamente ligada ao bairro
do Lombo, nas imediações do quartel do exército português, onde
cantou com compositores como Gregório Gonçalves. Aos 16 anos, Cesária começou a
cantar em bares e hotéis e, com a ajuda de alguns músicos locais, ganhou maior
notoriedade em Cabo Verde, sendo proclamada a "Rainha da Morna" pelos
seus fãs.
Aos vinte anos foi
convidada a trabalhar como cantora para o Congelo - companhia de pesca criada
por capital local e português -, recebendo conforme as actuações que fazia. Em 1975,
ano em que Cabo Verde adquiriu a independência, Cesária, frustrada por questões
pessoais e financeiras, aliados à dificuldade económica e política do jovem
país, deixou de cantar para sustentar sua família. Durante este período, que se
prolongou por dez anos, Cesária teve de lutar contra o alcoolismo. Igualmente, Cesária chamou a esse período de
tempo, os seus Dark Years.
Encorajada por Bana (cantor e empresário cabo-verdiano radicado em Portugal), Cesária Évora voltou a cantar, actuando em
Portugal. Em Cabo Verde um francês chamado José da Silva
persuadiu-a a ir para Paris e lá acabou por gravar um novo álbum em 1988. "La diva aux pied nus" (a diva dos pés descalços) - que é como se
apresenta nos palcos. Este álbum foi aclamado pela crítica, levando-a a iniciar
a gravação do álbum "Miss Perfumado" em 1992.
Desde então fixou residência na capital francesa.
Cesária tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos de idade.
Em 2004 conquistou um prémio Grammy de melhor álbum de world music contemporânea. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, distinguiu-a, em 2009,
com a medalha da Legião de Honra entregue pela ministra da Cultura francesa Christine Albanel.
Em Setembro de 2011,
depois de cancelar um conjunto de concertos por se encontrar muito debilitada,
a sua editora, Lusafrica, anunciou que a cantora pôs um ponto final na sua
longa carreira.
Veio a falecer no dia 17
de Dezembro de 2011, com 70 anos, por "insuficiência cardiorrespiratória
aguda e tensão cardíaca elevada".