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Acordo ortográfico, sim, mas...

O chamado “acordo ortográfico” foi, sabemo-lo agora, uma questão real, Para ser mais direto, foi uma questão de real – ou, sendo mais preciso, uma questão de reais. Com a economia brasileira a subir como sobe e a economia portuguesa a descer como desce, os euros cederam e os reais ganharam. Sim, porque finalmente cheguei a uma conclusão, depois de tanto pensar, estudar, refletir e ponderar sobre as razões que determinaram este ‘Acordo’: Algum brasuca analfabeto mas bilionário mandou para cá um montão de reais ao câmbio de 2012, depositados em euros ao câmbio de 2014 na conta dos nossos linguistas.
Pouco importa, agora. O ACORDO ORTOGRÁFICO CESSA A PARTIR DE HOJE. Acabou. De vez.

Esturrei os miolos à volta das questões do alcunhado ‘Acordo’. E agora estou convencido. Tomei uma decisão quanto à minha escrita de futuro e para todo o sempre (o meu sempre, claro). Agora estou convencido: estou convencido de que estes tipos não me convenceram.

Não foi tanto pela redonda estupidez que é subestimar a etimologia das palavras – e, mais, a História da escrita e da própria Cultura – para nivelarmos toda a gente pelo nível dos analfabetos, que é como quem diz, escrever como fala. Já me habituei a ler cartas com trechos como este: “Õve lá, ó meu, tu tás tipo a gozar comigo, só pode, só pode mesmo, meu, vai mas é bugiar, óu camano”.
Também não foi pela cretinice do argumento de facilidade de aprendizagem para as crianças. Foram sempre as crianças quem aprendeu a escrever corretamente – como são os adultos quem faz jus ao brocardo “burro velho não aprende línguas”. Estou mesmo a ver a meninice espanhola com dificuldade em escrever damnificar, ou a italiana às voltas para escrever tappezzería, ou as inglesas à rasca para escreverem Physician, ou as alemãs doidas para escreverem Fernsehapparat – para já não falar na garotada chinesa, japonesa ou árabe.
Nada disso. Os ortográfico-acordistas não me convenceram, mas foi pela falta de lógica, de inteligência, de senso prático nas soluções com que responderam às questões que eles próprios arranjaram.

Eu, se quisesse fazer uma reforma ortográfica com os objetivos deles, fazia-a à séria – de modo a tornar a fonética de cada letra simples, unívoca, linear.
Era para ser simples? Tudo bem! Então deviam começar por dar a cada letra uma só fonética. O ‘s’, por exemplo, soa de uma forma em ‘Sé’ e de outra em ‘Asa’ – mas os acordistas deixaram tudo na mesma. Pior: não acabaram com a confusão entre o grafismo de Sá, Cedo, Discussão, Açúcar, Ascenção, etc.
E para que serve o ‘S’ lido como se fosse um ‘Z’? Escreveríamos caza, meza ou briza… Depois, deixaram que continuássemos com uma data de consoantes inúteis: ‘H’ para quê, se não se lê? ‘Q’ para quê, se já temos o ‘C’? o ‘Ch’ para quê, se temos o ‘x’?
Eu daria a cada letra uma só sonoridade, repito. Para sibilar era o ‘S’, para abrandar a sibilação era o ‘Z’, para escrevermos ‘quanto’ usamos letras inúteis, pois poderíamos escrever ’Cuanto’. Assim como estas frases:
Um único ‘S’ :
Sempre que poso, vou à prasa bem sedo. Compro asúcar, alfase, asafrão e todas esas coizas presizas, sem discusão. Vou pela calsada asima, tomo o combóio e deso prósimo da estasão. Sei que iso faz bem à saúde. Asim é que é!
Um único ‘Z’:
O ezemplo mais ezótico é o da meza que tenho em caza. É liza e raza, boa para escrever proza, mesmo que seja um azelha.
Um único ‘C’:
Comeso por escrever como falo. Cuanto custa ir au telefone i dizer asim: Está lá… cem fala? Com cem cer falar? Ceria falar com esa pesoa, mas ela não está aci porce saiu – isto é o ce me parese…
Um único ‘X’: Axo muito lamexa um tipo xegar ao ponto de xorar lágrimas ce nem um caxo de uvas.

E assim sucessivamente:
Um ómem é um ómem i um gato é um bixo, esteja o tempo seco, de xuva ou apenas úmido.
O espètadôr ficou com contràsões a ver a bola em dirèsão à janela que á muito estava fexada.

Poupavam-se confusões, reduzindo a escrita ao mais bárbaro, digo ao mais simples e fácil possível.
E acabava-se com letras e grafismos inúteis: o ‘q’, o ‘ch’ o ‘ss’, o ‘ç’, para já não confirmarmos a inutilidade (que a História nos ensinou) de ‘k’, ‘w’ e ‘y’.
Até o ‘lh’ e o ‘nh’ são patéticos, não são? Ora cá por mim chegávamo-nos aos espanhóis (de quem nunca devíamos ter-nos afastado) e escreveríamos:
Olle, amigo, vòsê não estrañe se eu lle misturar allos com bogallos. Eu cá não me acaño por dar um baño à escrita.

Assim, sim, teríamos um Acordo facilitador. Seria fásil, onesto e onrozo, não axam?

Doutra maneira, não. Para assassinarmos oito séculos de evolução do latim para cá de Vilar Formoso, sem mais nem para quê, não aceito.
A partir de hoje, a partir de agora mesmo, cumprirei a lei que me impõe o estúpido ‘acordo’ apenas em documentos oficiais. Nos meus blogues, nas cartas para os meus amigos, na minha adorada escrita, isso não. Acabou-se o Acordo. Acordei.