Ontem e hoje
Já vai longe o tempo em que esperávamos os resultados das eleições em frente do pequeno ecran. Isso era no tempo da discussão de ideologias, de programas, de competências. Esse tempo, que lá vai, deu lugar à era da previsibilidade dos resultados praticamente no início da campanha eleitoral. Hoje não se jogam no país as ideologias nem os programas – jogam-se os interesses económicos e as forças que os sustentam. O poder do capital, a capacidade de resistência dos oprimidos, os “bons serviços” da comunicação social (às ordens da classe economicamente poderosa, no país e na Europa) – estes são os factores que ditam quem fica ou quem salta para o Poder Político.
Em Portugal/2011 sabe-se quase tudo, desde o início da gigantesca crise económica que as aventuras dos grandes grupos financeiros ditaram para a Europa. O desmesurado enriquecimento especulativo que desde 2003/2004 foi projectado e conseguido pelo jogo bolsista, a criação de fundos fraudulentos (no imobiliário, no petróleo, etc.) e os similares instrumentos de domínio do capital e sacrifício da Humanidade – tudo isso fez saber a quem ande de olhos abertos que a “bolha” ia estoirar a curto prazo e que, quando estoirasse, estaria chegada a hora de os capitais perdidos no jogo serem recuperados. Como? Só havia uma forma: exterminar a concorrência das pequenas e médias empresas, liquidar o comércio tradicional, levar o lucro da exploração do trabalho até ao limite.
Tudo se tornou muito claro no período 2008/2010. Está na hora de o capitalismo regenerar a suas forças. Chegou a hora de fazer na Europa o que os EUA fizeram com Bush filho: acabou a discussão política, acabaram os devaneios da Democracia – é tempo de arranjar um qualquer fantoche que dê “rosto” ao regresso da Direita mais furiosa, mais decadente, mais desumana. A Esquerda e os movimentos sociais devem fazer uma pausa.
A única dúvida. Decidem… os indecisos
A falta de qualidade dos agentes políticos e o vazio de ideias fazem prever a máxima derrota da Democracia, que é o máximo triunfo do mundo dos interesses e das influências: a maior abstenção de sempre.
A classe política continuou a desprestigiar-se. A grande maioria da população continuou a tomar consciência de que ir às urnas já não resolve nada. A campanha eleitoral foi um completo vazio de propostas. O PS fez as despesas da crise e o PSD apostou na exploração da crise. Os técnicos da propaganda encarregaram-se de acentuar o esvaziamento de ideias que lhes convinha: fulanizaram o debate, cientes de que o Poder eu estava vigente assentava no rasgo político de José Sócrates. Manuela Ferreira Leite, no comício em que participou, fez a síntese da estratégia: “não importa quem é que queremos que ganhe, importa é derrotar José Sócrates”.
Este o cenário adequado a fazer a mudança que o poder económico dominante na Europa determinou: o desinteresse da população mais isenta e esclarecida – isto é, o grande aumento da abstenção. A direita precisava de uma grande abstenção. E o grande vencedor nos votos vai ser, não tenhamos dúvidas, a abstenção.
Fizeram-se e multiplicaram-se sondagens. Todas evidenciaram o que é evidente: PS e PSD com eleitorado genericamente fixo (30% cada um). Sabe-se, por outro lado, que, o chamado “voto aconselhado” garantirá 10% às forças mais à direita – os 10% que sempre vêm do “aconselhamento” dos padres na igreja, dos tutores nos lares de idosos, dos médicos e senhores rurais que transportam os seus “aconselhados” até às mesas de voto. Daqui decorrem uma certeza e uma dúvida. A certeza de que aquilo que vai decidir a maior ou menor expressão da vitória da direita é a atitude que tomares aqueles que nas sondagens aparecem como “indecisos”. Se estes (sobretudo os jovens e intelectuais) persistirem na aversão às urnas, teremos uma enorme abstenção – e a direita chegará com alguma facilidade à maioria absoluta (que poderá mesmo ser conseguida pelo PSD sozinho, se a abstenção chegar a perto dos 45%). Se os mais esclarecidos votarem, a direita poderá ficar “à porta” da maioria absoluta que é absolutamente indispensável aos planos da Europa ultra-liberal.
A previsão mais que plausível
Ganhará, em princípio, quem comanda a opinião pública – a comunicação social mais afecta aos grandes interesses económicos, que em Portugal é actualmente maioritária. Sócrates será derrotado.
Prognostico uma taxa de abstenção superior a 40%. Com a enorme abstenção que é de prever, a direita ganhará com confortável margem. O PSD andará pelos 40%, se o abstencionismo for o que se supõe. O PS não se afastará muito, para cima ou para baixo, dos 30%.
Com a pobreza de campanha que teve e a manifesta ineptidão do seu líder, a direita ficará dependente do triunfo pessoal de Paulo Portas. Ele será, a seguir ao abstencionismo, o grande vencedor desta eleição. Dele dependerá a maioria absoluta, dele dependerá a estratégia de governação (que Passos Coelho é manifestamente incapaz de delinear). Portas dirá se quer mesmo ser o primeiro-ministro de facto, como bem anunciou, ou se lhe basta derrotar Sócrates e aproveitar as benesses do poder que diz não querer mas que toda a gente sabe interessarem-lhe.
E a esquerda?
Há em Portugal, cada vez mais, duas esquerdas: a representada nos partidos políticos e a que se traduz na pureza das convicções ideológicas.
O PCP e o Bloco de Esquerda perderão em toda a linha – parece inexorável. Depois da sua extraordinária subida nos últimos actos eleitorais, o BE será o mais penalizado, escapando mais o PCP ao desastre, até pela maior consistência do seu eleitorado habitual.
A esquerda de convicções, aquela que se esconde nos círculos intelectuais ou se afoita nas manifestações de rua, essa terá nestas eleições uma resultante paradoxal: muito menos votos, melhores perspectivas de futuro. O estertor do capitalismo selvagem, que pôde ser travado por um PS alinhado com a Europa liberal, vai agora ser posto à prova com outro cenário – o de os socialistas estarem no seu papel natural, o de defesa das conquistas sociais que a modernidade conseguiu em Portugal e na Europa. Não será fácil aos partidos da direita imporem aos portugueses as medidas que são as suas e que prometeram ao eleitorado mais conservador.
E perde mais quem mais ganhou
Cavaco, está claro. É ele quem, tendo feito todo o caminho que o seu partido traçou para chegar ao velho sonho (maioria, governo, presidente) maior sacrifício pessoal sofrerá na História. Sucedendo a homens de carácter como Ramalho Eanes, de estatura política como Mário Soares e de craveira intelectual como Jorge Sampaio, Cavaco ficará na História do país como o presidente que renunciou à suprema dignidade do seu cargo de garante do regime, aproveitando-se do cargo para colocar no poder a força política que o retirou da vulgaridade, mais do que pelos actos de dimensão moral como o da compra e venda de acções do banco que foi o covil da corrupção de costumes a que o país chegou. Afinal, no lugar que por justiça lhe cabe.
