quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

UMA CARTA à geração à rasca

[TRANSCRIÇÃO LITERAL DE UM TEXTO RECEBIDO POR E-MAIL]
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Querida Geração à Rasca
Tem-me doído muito o pensamento ao pensar-te e longamente te tenho pensado.
Começou por doer-me saber , de antemão, que 95% de ti não iria perceber-me, nem ao nível da linguagem, menos ainda dos conceitos.
Pese embora ser ferimento menor, também me custou o deboche do teu nome “ à Rasca”, porque as gerações que vos precederam cosideravam a expressão grosseira e respeitvam-se o suficiente para não lhes passar pela cabeça aplicá-la a si próprias. Mas enfim, essa é a menos grave das beliscaduras e – eu sei – há que ter em conta as mudanças do mundo. ( Claro que nunca perceberei por que é que as mudanças do mundo podem justificar o uso e abuso de linguagem tosca, agrosseirada e até o fraterno convívio com o palavrão e a obscenidade, mas essa é uma limitaçao muito minha que aqui assumo sem veleidades justifcativas).
Doeu-me depois prever que irias, irás precisar que um dos 5% ou alguém fora de ti, Geração à Rasca, fosse tradutor linguístico – da tua Língua Materna – e intérprete conceptual.
Não estou a falar-te do alto de uma Geração antiquíssima, passada e passadista e retrógrada. Não. Falo-te de uma Geração Antes, bem ao teu lado, composta pelos teus irmãos mais velhos, pelos teus pais, pelos teus avós, os primos e os tios, os amigos da família, gente real e viva, e válida e dolorosamente consciente das dificuldades que enfrentas e ainda mais dolorosamente consciente da tua mediocridade aflitiva.
Dessa mediocridade militante que te faz ir para a rua sem saber porquê, gritar incoerências que não sabes explicar, vazia de ideias e sem um único item de alternativas para lançar.
Essa mediocridade que te impede de ter uma visão informada e crítica de ti mesma e dos outros, do teu país, do mundo em que vives, do universo a que pertences. Porque ocupaste toda a tua energia a alienar-te de todas essas realidades.
A tua mentalidadezinha tacanha que, até agora, só reivindicou o telemóvel de duzentos euros ou mais, a roupa da marca que achas que é a única que mereces, a única que te assenta bem, a única que os pais têm obrigação de pagar, possam ou não, porque é a única que te faz sentir igualzinha a todos os que são iguaizinhos a ti, os 95% da tua geração, Geração à Rasca. A diferença, ainda que criativa, assusta-te. É também por isso que nunca afirmas gostar de uma coisa que pressintas que a massa não goste. Vais ao ponto de dizer que gostas do que, efectivamente, não te agrada muito, só para te sentires partícipe do espírito daquele colectivo de Geração à Rasca, por cuja aceitação fazes tudo.


Tudo. Começas por envergonhar-te dos pais – exactamente os que pagam as tuas sapatilhas de setenta euros, o luxo do teu telemóvel, os banhos de quarenta minutos, porque é muito ultrapassado tomar banhos de 5 ou 10 minutos e quem paga o gás não és tu, ora essa!, as pizzas que queres comer na rua, porque a comida de casa é para bimbos e velhos, a comida da mãe e a sopa era o que faltava!, as tuas saídas p’rá noite, as cervejolas e os shots, os livros de estudo, que tédio, as prendas ou o jantar de anos dos colegas, muitos por mês, então não havias de ir a todos?, a carta de condução porque te faz uma falta imensa! para conduzires o carro que não tens, mas exiges que eles te comprem um dia destes, senão entras em depressão e vão ter que pagar psicólogos e psiquiatras, ainda é pior, a excursão de fim-de-ano a não-sei-onde de Espanha, porque todos vão.
Envergonhas-te dos pais, mas eles são a tua única fonte de receitas. Que pensas inesgotável. E falas-lhes com má cara, com más palavras, com desrespeito total.
Também não respeitas os professores, que chatice, não ensinam nada, não é?, e tanto que tu gostarias de aprender! Tanto, que te aplicas a estudar, a esclarecer o que não compreendes, a ler e a inquirir dos mais experientes e mais velhos que mais ler, o que vale a pena, o que tem realmente interesse, que mais podes saber, como podes aprender, que fazer para chegares mais longe e mais longe ficar da ignorância… Não é assim? Não, não é assim. Não saber é o teu lema e disso fazes gala, enfeitas-te com o orgulho parvo do “não-sei-nem-quero-saber”, 95% da minha Geração não sabe e eu quero ser tal e qual, ora!
E nunca te atreves a ser tu. Até maltratas, de cambulhada com os outros iguais a ti e tu igual a eles, algum que ouse ser diferente. Ridicularizam, perseguem, humilham, agridem tudo e todo o que sair dos parâmetros acanhados do espírito de manada. Esse espírito tacanho e tosco que vos faz comportarem-se como vândalos, falar aos berros em todo o lado, dizer obscenidades como quem bebe água, vomitar sete palavrões em cada frase de cinco palavras.

Quando a mediocridade da tua mentalidade de rebanho te entedia, vais para a rua protestar. Contra quê? Contra tudo, claro está. Para reivindicar o quê? Não sabes. Por isso gritas inconsistências, por isso vais com os outros e nem sabes quem são, por isso estás lá porque os outros estão.
Não sabes por que estás lá, não sabes, sobretudo, para quê. Não vinha na SMS.
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