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A Geração Debutante de um País “à Rasca”

REFLEXÃO EM 4 OBSERVAÇÕES E 1 PROPOSTA

Num país em que por tudo e por nada se reúnem pessoas para tentar entrar no Guiness Book of Records, o dia 12 de Março de 2011 até poderia ter sido a data de mais um desses feitos. Terá sido a primeira vez que centenas de milhar de pessoas (pouco importando se foram 200.000 ou 300.000) marcharam na principal avenida da capital contra a desvergonha da classe política.
Por iniciativa da auto-denominada “Geração à Rasca” (ironicamente uma espécie de serôdia réstea da antes chamada “Geração Rasca”) ou por aproveitamento do estado de espírito que se foi desenvolvendo por solidariedade com aquele conceito – e, para o caso, tanto faz – a notícia de que em África se desencadearam revoltas de rua a partir das redes sociais na internet, essa notícia desencadeou um crescente movimento de aproximação de pessoas de todo o país e de todas as idades, unidas por um traço comum: o descontentamento com a elite governante e a falta de soluções (ou a imposição de falsas ou nefastas soluções) para a violenta crise económica em que estão mergulhados o mundo ocidental, a Europa em particular e o País muito em especial.
Pode dizer-se que “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão” – mas esta é uma explicação demasiado simples, simplista, do fenómeno. Pode lembrar-se que a cultura lusitana é e sempre foi a de procurar na inculpação de outrem a expiação da culpa que nós próprios não admitimos – mas também esta é uma saída muito rudimentar (e auto-desculpante) para desfocar o essencial deste movimento de geração quase espontânea que levou à Avenida da Liberdade mais (ou muito mais) de 200.000 pessoas. Podem todas essas explicações simplistas ter o seu quê de verdade, podem ter sido razão bastante para outros sucessos e de outras vezes – mas desta vez é diferente, há algo de diferente. Na saída de tantos portugueses à rua a 12 de Março há algo de mais sério.
2.
Geração e Gerações

Não são de pacífica ou líquida qualificação os atributos essenciais da geração que se diz “à rasca”. Podem ver-se nessa mole etária sonhos ou frustrações, ambição ou abulia, voluntarismo ou desistência. Quem quiser aprofundar honestamente a visão global e completa daqueles atributos desta juventude há-de ouvir e reflectir com ponderação e seriedade as análises menos transigentes, como aquela que vem na carta “Querida Geração à Rasca” que há dias recebi e transcrevo abaixo. Mas todos sabemos que os jovens que a 12 de Março vieram para a rua gritar não vieram desprovidos de motivos e razões que no nosso clima social já são demasiado presentes para serem ignorados ou menosprezados. O que moveu esses jovens – e os menos jovens, muitos, que com eles saíram à rua – foi algo de muito sério, que no tecido social português emerge generalizadamente e já vinha de trás.
Já vinha de trás – e com crescente clareza – o chamado “divórcio entre os políticos e a sociedade civil”. Já esse divórcio vem em crescendo de há tempo suficiente para ser passageira moda do humor do povo. Abstenção pela vida pública, indiferença pelo progresso cultural, desleixo pela participação cívica – tudo já desde há muito que vem sendo avolumado sintoma da falta de sintonia entre o pequeno grupo que traça os destinos imediatos da Nação e a grande multidão a quem mais interessam esses destinos. Nesta multidão já quase todos vêem aquele pequeno grupo como uma corja. E o pior é que essa maneira de ver parece nunca ter sido tão lúcida.