quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Heróis do Mar Amarelo

Com a derrocada da economia portuguesa diante daquela malfadada estória dos "mercados", Hu Jintao terá vindo fazer a aposta do capital chinês no campo do nosso desespero. Veio, para aceitar que lhe pedissem esmola – e pediram-lha ao (nosso) mais alto nível: o poder luso, comandado pelo professor de Finanças Cavaco Silva, entregou-lhe com um sorriso as chaves das porta da Europa, as mesmas chaves que não servem nas portas que vão sendo fechadas à economia portuguesa pela União Franco-Alemã com sede em Bruxelas.

Com a indústria e o comércio portugueses já de gatas aos pés dos chineses, Hu Jintao veio comprar uma boa parte de Portugal – talvez em troca de maior facilidade para colocar cá mais uns chineses... para aí uns dez milhões, que à escala de Pequim são meia dúzia de "emigrantes", menos de 1% dos que passam fome na China.
Lembrei-me do que vi quando, há uns anos, dei uma volta pela China, um país de muito e brutal capital, conseguido sem suor mas à custa de sangue e muitas lágrimas.
Pensei na quimera de um boicote económico do Mundo Livre a um dos países que mais ultraja os direitos humanos.
Arrepiei-me pela banalidade com que o chamado mundo desenvolvido vê a humilhante e já não paulatina morte dos comerciantes da minha terra, da indústria do meu país, da economia da velha Europa – às mãos do capital chinês, angariado e multiplicado em poucos anos sobre os cadáveres de trabalhadores explorados, crianças torturadas, pensadores amordaçados…
Procurei fugir do pessimismo. Talvez os meus netos um dia tenham um futuro dourado no outro lado do mundo, como emigrantes no maior país do planeta. Quem sabe não estará hoje a nascer, em Portugal, uma nova geração de heróis do mar?