Onde germina calada a podridão
Chegamos ao fim de 2009 com o credo da crise na boca. No limiar de um Novo Ano, não faltam angústias planetárias e domésticas, sinais e números que escondem dramas individuais provocados pelos infernos do desemprego e da pobreza. Às vezes, a narrativa informativa dá nota dessas perplexidades cósmicas e até pode acontecer que se detenha uns segundos nessa margem onde o homem é a medida de coisa nenhuma. São casos passageiros, dizem, que fazem parte do registo efémero dos dias. Nestas alturas, em compasso de festa, costuma-se perguntar pelos acontecimentos e figuras do ano, como se a vida pudesse ser resumida em balanços circunstanciais. Mas talvez o acontecimento do ano possa ser aquele fenómeno relatado em passo de corrida (se é que foi mesmo relatado!) daqueles franceses que puseram termo à vida por a multinacional para que trabalhavam os ter julgado dispensáveis. Quando Camus mergulha na fatalidade do seu Sísifo, diz que o suicídio (estou a citar de memória) é porventura o problema mais sério da filosofia, poderia estar a falar-nos desta realidade de horizontes fechados que é crise global e destrói o homem na sua mínima humanidade.
O resto é silêncio. Com 2010 a bater à porta, talvez fosse bom pararmos um pouco, antes de entrarmos no Novo Ano, e reflectirmos sobre os dias andados questionando os autores de uma outra filosofia suicidária, de matriz económica e financeira, que produziram a hecatombe que se conhece com as suas receitas gananciosas e o seu fantástico ultra liberalismo económico. Tirando os que, pela notoriedade das burlas, ficaram presos ou a contas com a justiça, os outros, do alto da sua relevância política, continuam a dar cartas e conselhos e até a materializar políticas. O mundo não tem emenda. Os dados estão lançados.
Fernando Paulouro Neves, in Jornal do Fundão on line, 21.Dez.2009

A pobreza dos outros
O padre que, na infância, nos dava a catequese pregava a pobreza no púlpito mas, fora dele, tinha vinhas e senhorios e dizia-se que pagava as jornas mais avaras da região. Um dia em que apareceu com um carro novo, um Taunus azul escuro, o Américo, filho do taberneiro, pôs-lhe uma inocente questão teológica: porque é que Cristo andava a pé ou de burro e não de automóvel? O padre António ofendeu-se; respondeu que burro era ele, Américo, porque no tempo de Cristo não havia automóveis e que, se houvesse, Cristo teria um carrão. Nesse dia, a catequese foi sobre o pecado da inveja e o Américo teve que prometer que se iria confessar. Ocorreu-me esta história ao ler no DN que o Papa virá a Portugal (três horas de viagem) num avião adaptado para lhe assegurar o máximo conforto. "O espaço ocupado pela 1.ª classe terá um quarto com cama para o Papa, outro para o seu secretário pessoal, uma casa de banho com chuveiro, um salão social e até uma pequena capela". Aprendi a lição do padre António e não duvido que, se no seu tempo houvesse aviões, Cristo também andaria com cama, salão social e capela atrás de si.
Manuel António Pina, in Jornal do Fundão on line, 14.Dez.2009