Há muitas maneiras de ver e sentir o Natal.
Tantas, que por vezes temos dificuldade de saber se a quadra, a data, a era, o espírito são aquilo que imaginamos, ou o que imaginámos um dia.
Carlos Drummond de Andrade afirmou uma vez o que foi, ou era ou devia ser o espírito e a realidade do Natal.
O pensamento foi publicado no Jornal do Fundão em Dezembro de 1981 – e lembrado na revista “Natal 2009” publicada como suplemento do JF.
Tão actual, mais actual ainda que há 28 anos.
A Papai Noel
Continuo acreditando no senhor, como nos velhos tempos em que também eu fui criança, mas francamente, o senhor não move uma palha para se tornar merecedor desse crédito. Pelo contrário cada ano está menos convincente e menos Papai Noel. Como garoto-propaganda, é uma tristeza. A molecada sabe que o senhor está anunciando produtos, em vez de distribuí-los a todas as crianças sem distinção de classe. E alguns moleques até cogitam de tasca-lo. Todos sabem que o senhor foi contratado pela loja Tal da rua Tal para recomendar os seus produtos. Quando aparece na televisão, vendendo isso ou aquilo, dá vontade de acendes um pau de fósforo nas suas barbas de algodão. O senhor exagerou. Desculpe, mas é a verdade.
Não sou dos que o acusam de ser estrangeiro. Para mim tanto faz se o Deus que cultuamos é estrangeiro, a terra que habitamos foi foi descoberta por um estrangeiro, e Virgílio e Mozart são estrangeiros. O que me aborrece é o senhor ser tão pouco o senhor mesmo, é ter saído à rua em vez de continuar morando no sonho da gente. Se materializou demais. E se banalizou demais. Passou a não existir como figura de imaginação, e – perdoe a expressão – se borrou todo. Continuo acreditando no senhor a despeito do senhor mesmo, mas se o senhor continuar assim, eu acabo aderindo ao Carlito Maia, trocando-o pelo Chaplin, amigo dos humildes e humilde ele mesmo, em seu anarquismo gozado.
Ciao, velhinho.
