"Há tristezas piores nesta vida" - é o que sempre se diz quando nos aflige uma desgraça.
Para nós os cinco, hoje não poderia haver maior tristeza. Estávamos à espera do desenlace - mas até por isso; a perda não causa menos sofrimento por ser esperada.
Ao desistir de bater, o coração do Chopin passou ao sofrimento zero - mas até por isso a nossa tristeza foi tão sentida; porque o vimos esperar pela morte sofrendo, mas sempre com aquele olhar estóico e manso com que a vida inteira se acercava da "mãe"... Isto, depois de regressar à casa "paterna" e abandonar intermitentemente a sua inestimável companheira de infância, porque tinha de ser.
Voltou à casa de ambos há umas semanas e sentiu-se lá como no céu, como no céu que lá viveu durante os 2 anos mais importantes da sua vida, partilhando os livros com a companheira a quem curou do maior mal da espécie humana, a solidão, em troca de receber dela a cura do maior mal da espécie dele, a animalidade. Ah e ganhou, nesse dia em que deixou a casa de que era condómino com a sua companheira, num 2º andar da grande cidade, ganhou nesse dia um novo direito: o do nome próprio no lugar do apelido original. Chopin passou a ser (também) Pinho.
Voltou à casa de ambos há umas semanas e sentiu-se lá como no céu, como no céu que lá viveu durante os 2 anos mais importantes da sua vida, partilhando os livros com a companheira a quem curou do maior mal da espécie humana, a solidão, em troca de receber dela a cura do maior mal da espécie dele, a animalidade. Ah e ganhou, nesse dia em que deixou a casa de que era condómino com a sua companheira, num 2º andar da grande cidade, ganhou nesse dia um novo direito: o do nome próprio no lugar do apelido original. Chopin passou a ser (também) Pinho.
Por cá, já no 6º andar da pequena cidade, o nosso Pã nunca renunciou à personalidade do seu original apelido, a que fazia jus preferindo o piano da biblioteca sossegada e penumbrosa para muitas das suas sonecas. Mas aceitou sempre o carinho de ser chamado Pinho, especialmente utilizado quando a sua primeira companheira vinha visitar-nos, a nós e a ele.Ela veio há dias, de propósito, numa apressada folga do trabalho, fazendo correr o automóvel pela noite da A23. Veio confortá-lo na doença - e despedir-se dele até sempre.
Talvez ele não o tenha percebido. Não terá?
Ao colo da "mãe", com os desvelados cuidados que voltaram a ter a forma da primeira infância mas foram iguais em sentimento ao carinho que toda a vida recebeu, foi adormecendo. E foi assim que nos braços da "mãe" esta madrugada adormeceu para sempre.
Há tristezas piores nesta vida? Não hoje. Não para nós cinco.
Chopin
(1998-2009)

