quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Piores que Inimigos

Não sendo mais que um cidadão comum, sei pouco de misericórdias. Da Santa Casa da minha terra também percebo apenas o quase nada que os meus concidadãos percebem. Quiseram algumas vezes fazer-me Irmão, mas não pude voluntariar-me, porque não sou católico praticante, condição primeira que os estatutos da irmandade impõem. Nem me convenceram umas subtilezas lexicais à volta do que é a prática da religião e da moral, porque no catolicismo não há “praticantes” e “não-praticantes” – há católicos e não católicos. E não me diz respeito se alguns dos que na misericórdia da minha terra se irmanam (e quem sabe se alguns dos que têm reservado o “fardo” de conduzir os destinos da Santa Casa dentro em breve) vão tanto à missa como eu. É assunto deles, da Igreja e, é claro, da Irmandade. Eu é que não poderia ter esse “peso na inconsciência”, como diria Mia Couto.

Sobre a guerra que se travou na Santa Casa da Misericórdia do Fundão também não me cabe falar – não tanto por não querer ser apenas mais um a disparar as primeiras balas que saissem da cartucheira, como, principalmente, porque estaria a falar de coisa alheia. A Misericórdia é uma instituição particular e, por isso, pertence aos seus Irmãos, no bem e no mal, para o bem e para o mal. As deliberações dos Irmãos, desde que tomadas por eles, só podem ser e serão sempre as melhores, porque são a expressão de quem tem legitimidade para formar a vontade da instituição. São os Irmãos que têm de entender-se – e quando se não entendem manda a lei que sejam eles a requerer ao Tribunal uma comissão administrativa para os destravar de razões. Nem ao caso vem que, no Fundão, os desavindos Irmãos tenham trocado o poder legalmente cometido aos tribunais pelo dictat do seu bispo. Foi o que eles quiseram e a decisão é, como teria de ser, deles. Se isso suscita a aceitação do Estado e das normas da Segurança Social que paga uma boa parte das facturas, também é lide entre os Irmãos e o Estado. E terem metido o Senhor Bispo ao barulho de uma pessoa colectiva que, sendo de erecção canónica, se rege pelas leis civis e administrativas do Estado, significará que vai ser feito a três o desembrulho que só a dois dizia respeito. Tudo obra da Misericórdia com a sua própria irmandade, tudo negócio consigo mesmo – em que ninguém de fora tem o direito de meter-se.

A mim, como à generalidade dos meus concidadãos, o que preocupa é que a Misericórdia do Fundão é hoje “pedra angular” na economia do concelho, para citar o avisado(r) pensamento do Director do Jornal do Fundão. Não nos intrometendo nas decisões e indecisões dos Irmãos, já todos tememos pelas consequências sociais que uma crise da Santa Casa possa trazer à nossa terra – e sobretudo àqueles que, não sendo Irmãos, dependem da fraternidade da Misericórdia. Ser o maior empregador privado do concelho é apenas uma pequena parcela da importância da instituição, tutora de muitas vidas de crianças, idosos e desvalidos, depositária de importante património que a generosidade de muitos quis afectar à fruição de muitos mais. A res publica já não consegue ser indiferente aos destinos desta irmandade privada. Como ninguém ignora a importante obra que ela fez nos últimos anos, até onde o poder laico não chega e deveria chegar. O próprio poder político não tem prescindido de significativas inaugurações abrilhantadas à custa do património, da obra, do estatuto e da complacência da Misericórdia. Só quem quiser cegar não vê o guloso interesse da classe política pelo poder que uma instituição destas comporta.

Esta crise da Santa Casa traz, além dos cuidados quanto à continuidade da gestão e da obra da irmandade católica, outras preocupações sobre o futuro do Fundão. Ela foi um afloramento agudo da acelerada perda de um dos valores mais característicos e preciosos deste povo com título de cidade: a capacidade para o diálogo – leia-se disponibilidade para a procura das soluções colectivas pelo desinteressado empenhamento de cada indivíduo e o independente envolvimento das chamadas “forças vivas”. Na última meia dúzia de anos o Fundão está a deitar fora o precioso capital do consenso. O potencial criador da opinião, do alerta e da crítica está a ser trucidado pela obstinação de erguer barricadas. Abrigada nas trincheiras, nasceu uma nova casta, com um voraz apetite por confronto e segregação. Com os devotos mais fiéis e com os cristãos-novos que acorrem a soldo, a luta que mais importa é a cruzada. Ai de quem queira alvitrar soluções conciliatórias. Ai de quem reclame o comum esforço de todos para remar em direcção ao porto comum que é o do bem e da Paz na pátria comum. Ai de quem levantar o braço, que logo está declarada a guerra. E na guerra, o “monstro que tudo devora”, há louros e há sangue.

No caso da Misericórdia – que, repito, é seara em que não me compete meter a foice – os Irmãos tinham o sagrado direito de escolher o rumo a dar à sua casa. É direito deles e não meu. Mas creio que também era obrigação sua fazerem-no em paz e de olhos nos olhos. Merecia-o o esforço de 20 anos de um Provedor que, queiram ou não, deixa obra de vulto – e por isso deveria sair em glória, em vez do vergonhoso apupo que se acobardou nas palmas dedicadas à nomeação dos substitutos. Merecia-o a pureza com que o Prof. Doutor Videira do Amaral quis doar aos seus pares um exemplo de serenidade, conciliação e generoso espírito de missão (pérolas a porcos, infelizmente). Merecia-o a integridade da figura moral do Senhor Bispo, que bem poderia ter sido dispensado da solução palaciana preparada com intriga e astúcia. Merecia-o, afinal, a natureza da pessoa colectiva de cujos interesses se tratava – e cujo superior interesse deveria ter sido o único a prosseguir.

Os Irmãos da Misericórdia são, antes de mais, homens e cidadãos. O que se passou dentro da sua casa teria de ser sempre o reflexo da nobreza e das fraquezas que cada homem-cidadão levava do exterior da sua vida, transportava no interior da sua alma. Faz pena que uma irmandade de multi-secular valor moral tenha dado à comunidade civil um tão decepcionante exemplo de incapacidade de conciliação. Vem à memória a sinistra constatação de Pittigrilli: "piores que inimigos, eram irmãos". Mas é esta a massa de que são feitos os nossos homens. Homens que preferem a guerra à Paz, homens que trocam o reconhecimento da dádiva alheia pela ingratidão e a desconsideração, homens que esquecem o ínfimo valor do sucesso de cada um ante o infinito sentido do Destino da Humanidade de que não podem desligar-se. É isto o que vai na Misericórdia, porque é isto que vai na nossa terra. É isto o que desaponta quem é simples e humilde cidadão mas ama a sua terra e a vê disputada como troféu de uma guerra que os seus verdadeiros filhos não querem. Só a Paz tem a virtude de proporcionar louros a quem merece triunfar, sem o sangue de quem não merece ser sacrificado.

Esta guerra que se acendeu na nossa terra pode ser obra de poucos mas implica muitos e atinge muitos mais. Na Misericórdia como na polis, hoje como no fundo da “longa noite de dez séculos”, as maiores vítimas estão desarmadas, colhidas num campo de batalha que não é seu. Mesmo que seja o campo da guerra santa. Para elas, esta crise pode ser nem mais nem menos que golpe de misericórdia.