quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Crónica do mês

"A espantosa realidade das coisas
.
A narrativa da realidade fornece sempre abundante matéria de reflexão. Nessa emergência do quotidiano, de que o jornalismo tantas vezes se distancia, colhem-se traços da vida colectiva, doenças mais ou menos enquistadas na sociedade portuguesa que a rotina vai banalizando. Mas, de vez em quando, o tédio dos dias desemboca na anormalidade e razões ocultas explodem numa violência inútil de surpreendente irracionalidade. As consequências, pelo seu carácter irremediável, tornam-se então motivo de angústia colectiva, não faltando a perplexidade que conflui na indignada interrogação: como foi possível? O crime da Borralheira, aldeia periférica da Covilhã, de matriz rural, mas aberta como todas ao confronto da globalidade, é, como se diz, um caso. Um caso decerto com muitas razões ocultas, mas de contornos sociais bem explícitos, se o quisermos analisar na contextualidade dos factos. Há, desde logo, a marca da intolerância em relação a um cidadão que, na debilidade da sua própria história de vida, era facilmente presa indefesa para ser bobo. Há, depois, a irracionalidade que sobe dos desvios comportamentais de três jovens. E, também, a doença letal da indiferença sobre este drama continuado, o sorriso da boçalidade e da estupidez que elege a desumanidade como divertimento. A microrealidade do crime da Borralheira oferece ainda outro cenário que bem merece ponderação. O consumo de álcool como droga quotidiana que atinge sobretudo os mais jovens da tribo e configura hoje, no plano regional (e seguramente nacional), um problema de saúde pública com imensos traumas psicológicos no comportamento colectivo. Daí que, nesta edição, o JF tenha ido em busca do retrato de “alma” de uma aldeia depois do crime, e, do mesmo passo, tenha eleito como Grande Tema semanal o problema do alcoolismo na Beira Interior. Porque isto anda tudo ligado. E não adianta ignorar a espantosa realidade das coisas.

(Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão de 8.Nov.2007)