quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Luiz Antunes no Fundão

Le Coq is Alive


Com o bailado LE COQ IS DEAD, Luiz Antunes esteve no Fundão, no palco da Moagem a 29.Dez.2007.

Esteve mais do que bailarino, esteve mais do que coreógrafo, esteve mais do que atento leitor do poema bailado "Le Spectre de la Rose", que o inspirou, esteve mais do que criador, esteve mais do que estudioso das artes de palco – esteve lá todo. Esteve lá a pessoa de Luiz Antunes, em alma e vida, ou talvez melhor dizendo, em vida e alma. Esteve lá inteiro – e três vezes.
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"Três Vidas" poderia ter sido um alternativo título da obra. Trilogia de inspiração, trio de obras musicais, tríade de personagens, visão tripartida do rumo da vida de um artista diferente na afirmação (ou na procura) do seu sentido original, tripla fonte de inspiração-pressão em que a vida do autor o impeliu para a criação desta obra. Caminho de três passos que são nada mais (ou nada menos) do que a tese, a antítese e a síntese de uma opção de caminho artístico. Se é que não estamos perante a opção entre três caminhos: a arte clássica, a arte pós-moderna e um modernismo purista e exigente com inextrincáveis laços ao classicismo.
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Talvez esteja aqui o ponto da questão de fundo. Luiz Antunes é um clássico. E, valham a verdade e a justiça, é um clássico dos melhores. Daqueles que sobrevivem no preconceito pós-modernista que sequestra – e quantas vezes castra – os criadores de arte e os promotores de cultura do nosso tempo e no nosso espaço. É um clássico no melhor dos sentidos: conhece e domina o rigor da técnica, mas utiliza-o ao serviço da criação, da liberdade de expressão, do primado da sensibilidade e do belo, que faz da arte uma forma de expressão sublime, humanamente sublime. Aceita as linguagens do seu tempo, as vias de liberdade de exploração dos sentidos que são as da sua geração, as paredes transparentes da criação sem limites que são as da sua era – mas aceita tudo sem renunciar ao respeito pelo padrão de universal qualidade que para os clássicos é um axioma. Como todos os artistas sérios, como todos os verdadeiros artistas, o Luiz sabe (e sente) que por alguma razão o Don Quijote de Cervantes é hoje tão actual como Os Cus de Judas, por alguma razão a arte da Fuga é, 300 anos depois de exposta por Bach, tão actual como o Free Jazz do final do século XX.
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Le Coq is Dead é um contra-senso – um maravilhoso e comovente contra-senso. Sendo a projecção psicanalítica da vida de sofrimento e grandeza de um artista em luta pelo direito à diferença, é um contra-senso da ideia da morte aceite com uma vitalidade pujante, da ideia da opressão combatida com uma liberdade estruturada, da ideia da tirania das convenções enfrentada com as lágrimas do orgulho e do amor-próprio.
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A base musical é o começo da compreensão da obra: três peças da "grande música" ordenadas numa sequência de aparente inversão. A "Lacrimosa" do Requiem em ré menor de Mozart, O "Cisne" de Camille Saint-Saens e o "Convite à Dança" de Carl Maria von Weber asseguram a estrutura do bailado, que, com esse alinhamento, parece começar com a expiação da morte e terminar com o início do caminho. Parece – insista-se na aparência – a história da vida contada ao contrário. Já lá iremos. A música é, nesta obra, um bom ponto de partida (não será sempre?). Três peças de uma qualidade melódica excepcional, tendo como ponto comum a imprescindível "dançabilidade" e como especificidade própria de cada uma a força expressiva. A carga da Lacrimosa é contrastada pela subtileza d'O Cisne – e ambas são complementadas, completadas e integradas/contextualizadas pela Convite à Dança. Se a conjugação é do ponto vista musical feliz, se do ponto de vista da dança é completa – sob a perspectiva da obra no seu conjunto é perfeita. Perfeita como fio da narrativa e como elo da mensagem, mas também perfeita como evidenciadora do sentido teleológico da suite e do próprio caminho artístico do criador. As três peças são, nem mais nem menos, a tese, a antítese e a síntese de Le Coq is Dead – luminosamente! Mas há mais, na música da obra: há o contraste dos temas de forma contemporânea que servem de cimento às peças clássicas – ou, melhor, de ambiente histórico-psicológico-sociológico em que a identidade do autor e da sua obra-mensagem se desenvolvem, se movem, se atrofiam, se libertam e renascem. A ligação entre as peças clássicas e a criatividade mais contemporânea do "maestro" João Bento é uma agradável surpresa – de consistência, de equilíbrio formal, de instabilização reequilibradora e, enfim, de uma beleza global que se ajusta ao bailado como uma luva.
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Depois, há a dança. O principal, o essencial – aquilo de que há tanto para ler, mas tão pouco (ou tão difícil) para escrever. Três bailarinos, que personificam o artista obrigatório da tese, o artista proibido da antítese, o artista libertado pela síntese. Estão lá a rotina social que parece indiferença mas é tirania, a explosão que parece marginalidade mas é singularidade, a opção que parece fuga mas é força de redentora identidade. Três personagens de grande complexidade, assumidos por três intérpretes de confortante verdade. Três linhas de força em que o centrípeto e o centrífugo ameaçam levar à autodestruição mas acabam por se conjugar no grito da criatura que vem à luz do dia com vontade de viver o seu próprio destino. Um grito que, gerado da dor da solidão comoventemente ilustrada em cenas como aquela em que o protagonista (será ele?) faz um doloroso diálogo de vaivém com o espelho, ou aquela outra (será outra?) em que se debate entre o cumprimento das ordens que lhe dão para encontrar o seu próprio prazer (será próprio?), mas também conquistado na paz do voo do cisne que mergulha na musicalidade dos seus próprios movimentos/impulsos – um grito que é, com tudo ou contra tudo, um grito de alegria, de redescoberta e redentora alegria.
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Da morte para o nascimento. Parece a história da vida contada ao contrário. Mas, se essa opção formal corresponde à vontade de mensagem do autor, o que ela tem de mais verdadeiro é que esta aparente inversão da vida faz parte da… ordem natural da vida: o artista começa no assassinato que lhe infligem quando desabrocha, e chega ao fim quando consegue libertar-se e "nascer". É assim com todos os artistas sérios, verdadeiros artistas – e é assim que Luiz Antunes pretende afirmar, com inspiração fina e transpiração séria, que está vivo, que está a caminho da maturidade da morte que recebeu da Natureza e pronto para nascer na identidade que conquista na arte.
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Oxalá esta pacificação consigo mesmo, esta aceitação da riqueza que há na luta de contrários, este triunfo sobre as inseguranças e os medos da diversidade sejam interiorizados, assumidos e vividos como uma segura via de liberdade e identidade artísticas, de orgulhoso contentamento e exigente insatisfação de vida. Para esse Luiz Antunes, o céu é o limite.