Estranha sensação, a de fazer votos de insucesso a uma nova infraestrutura da minha terra!
O Natal, mal se dá por ele. A iluminação (podia ser pior) indifere nas ruas, desenhada rotineiramente, colocada por rotina, consentida por hábito, convivida sem desábito. Os rostos que se arrastam, iguais ao sempre que é o presente, outrora pensado nunca por futuro. A alma em conforme desconchavo, na desconforme conformação.
A luz do madeiro confinada à hora da missa, arredada dos corações da tradição, que o brilho do fumo incomoda o cinzento do templo - e na "casa de deus" já não há lugar para todos, que tanto faz nunca mais regressarem os que dela sairam um dia, quem sabe se por mera dúvida. Fogueiras só as do santo lar da irmandade, acesas para exorcizar a casa santa dos malefícios dos excomungados (postos na fogueira com a codícia do "amarás o teu próximo como a ti mesmo" aprendida na guerra santa da longa "noite de dez séculos".
Neste natal, as ruas da minha terra estão desertas. Ausentes os passos que o frio da vida aforra e o gelo do pão sentencia. Encolhidos os ombros na intimidade da alcova.
Desertas as ruas da minha terra. Os automóveis fugidos da usurpada liberdade de estacionar. Comércio às moscas do inverno, desolado no marketing patético.
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Pobres os comerciantes de sempre na minha terra. Como lhes não bastasse a luta que por mor de honrar os encargos se fez desnorteada concorrência fratricida, têm agora um adversário de armas desiguais: a Câmara Municipal intromete-se na competição; cria comércios de rendimento seu, abre restaurantes e botequins, concessiona serviços.
Quando o comércio-maior da cidade se apouca de gente e afunda de caixa, epidemizam os concorrentes de apadrinhamento municipal: restaurante na piscina velha, restaurante nas piscinas novas, bar no jardim da cidade, bar na biblioteca municipal, bar na moagem, restaurante no museu. Tudo em espaços muito pipi, ar ricamente condicionado, ambiente cirurgicamente concessionado - tudo sem espaço para que se lhe faça frente. Tudo sem permissão para o concurso dos comerciantes de sempre na minha terra. Tudo tão rico de lucros como as tradições que a minha terra perdeu, tudo tão brilhante de benefício para a minha terra como o olhar baço dos seus filhos de sempre - de um sempre viver aqui teimosamente estóico.
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No sábado passado implodiu um novo restaurante no que outrora foi a moagem. Veio de fora, com as parangonas para que os de cá são tributados. Por causa dele não vai fechar nenhum comércio da minha terra - apenas ficam com mais certeza de não reabrir os que morimbundavam, tão somente se quebram as ânsias dos que por dentro da porta encostada espiavam a quimérica chegada de um cliente redentor.
Que se dê mal por cá a concorrência aos homens de sempre que na minha terra resistem, compulsivos na roleta da sobrevivência.