
"Figura de ricos em terra de pobres
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PARECE que se banalizaram as notícias do endividamento e do desnorte financeiro das Câmaras Municipais. Não faltam auditorias e avaliações, anátemas ameaçadores sobre hipotéticas bancarrotas, argumentos convergentes num retrato compósito, mas nítido, de uma situação financeira que, às vezes, faz lembrar aquela saborosa história brasileira sobre a insolvência do país: “O último a sair que apague a luz e feche a porta!” Dirão alguns que a caricatura é excessiva, mas todas o são, pois é no traço grosso da ironia que a metáfora pode ganhar um sentido, ao mesmo tempo, concreto e de leituras extensivas a realidades próximas ou remotas. É certo que há sempre nesta narrativa da actualidade política critérios pouco inocentes, onde, às vezes, se descobrem intenções estratégicas de empolar realidades, enquanto se esvaziam outras, na dicotomia das contradições entre o poder central e os poderes periféricos. Na “abertura” marcelista, a censura recebeu ordem de aliviar o critério relativamente às críticas às Câmaras Municipais, enquanto subia o rigor no resguardo aos órgãos de poder excelentíssimos, como se houvesses duas realidades! Seja como for, se o poder local democrático é uma construção notável, que temos de averbar ao 25 de Abril, não podemos ignorar que a persistência das críticas ao universo económico e financeiro municipal tem raízes objectivas em múltiplas políticas despesistas, tantas vezes de fundamento clientelar, que se tornaram matrizes da acção política. O problema já tem dimensão de crónica judiciária, em alguns casos, com sacos azuis ou de outra cor, enquanto no plano genérico do país, a proximidade dos cidadãos ao poder facilmente detecta abusos, promiscuidades e delírios de megalomania. Não faltam equipamentos de finalidade duvidosa, que custam milhões, nem a procura de uma monumentalidade de disputa concelhia que muitas vezes não é outra coisa senão sinal de provincianismo. Noutro plano, as Câmaras tornaram-se agências de empregos (quem não tem cartão do partido é ladrão de si próprio! – princípio comum à área governamental), dilatam quadros de pessoal, criam gabinetes repletos de assessores e forjam redes de empresas municipais, de controle duvidoso, que também são lugares selectos para apaniguados ou afilhados. Não faltam exemplos de um novo-riquismo que não é apenas vexatório para os que vivem dificuldades acrescidas, mas também difícil de engolir para o próprio quotidiano dos Municípios que vê o futuro hipotecado na cornucópia das despesas e dos empréstimos bancários. No viver português (há quem lhe chame uma idiossincrasia) é recorrente essa atitude de se fazer figura de rico em terra pobre, e talvez nenhum outro povo goste tanto de jogar no improviso de viver acima das suas reais possibilidades. O quadro negro das autarquias, que veio de novo à baila, onde não falta o labéu da falência (valha-nos a honrosa excepção de Castelo Branco), transforma-se em querela partidária. Ora, tendo o assunto tanta relevância pública, e provando-se, com o tempo, que o reino do poder local é relapso à emenda, é urgente que o Estado clarifique o problema. E venha dizer, preto no branco, quais são as autarquias em situação de ruptura financeira, como e porquê. Nesta, como em outras matérias, a transparência é exercício de dignidade. Essencial à edificação do futuro. Já passou o tempo em que a filosofia da acção política dizia que “onde todos pagam, nada é caro!” Isso acabou. Todos pagamos cada vez mais caro os devaneios dos poderes."
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